Vice-procuradora-geral da República pede demissão depois de dizer que Temer está sendo delatado e de chamar o impeachment de golpe

 Ela Wiecko Volkmer de Castilho, ex-vice-procuradora-geral da República (Foto: STF)Ela Wiecko Volkmer de Castilho, ex-vice-procuradora-geral da República (Foto: STF)

Ricardo Noblat

Primeiro ela apareceu em um vídeo exibido na TVT, a TV dos Trabalhadores, ligada à CUT. Ajudava a segurar uma faixa onde estava escrito “Fora Temer” durante uma manifestação, em junho último, em Portugal liderada pelo acadêmico Boaventura de Sousa Santos, professor da Universidade de Coimbra. Mas a presença dela não foi destacada pela TVT. Somente quando o vídeo caiu na internet foi que amigos e desafetos dela a identificaram.

Depois foi a entrevista concedida, ontem, à VEJA e postada no site da revista. Ali, entre outras coisas, Ela Wiecko Volkmer de Castilho, vice-procuradora-geral da República, confirmou que era ela mesma a mulher que ajudava a sustentar a faixa; chamou de golpe o processo de impeachment da presidente afastada Dilma Rousseff e revelou que o presidente interino Michel Temer está sendo delatado.

“Eu estava de férias [em Portugal], em um curso como estudante. Não posso pensar nada? Não posso ter liberdade de manifestação? Isso é um pouco exagerado. Fui discreta, estava junto, e não tive protagonismo maior”, justificou-se a vice-procuradora-geral. Sobre o impeachment, comentou: “Eu acho que, do ponto de vista político, é um golpe, é um golpe benfeito, dentro daquelas regras”.

Quanto a Temer: “Eu estou incomodada com essas coisas que estão acontecendo no Brasil. Acho que não foi da melhor forma possível. E pelas coisas que a gente sabe do Temer, não me agrada ter o Temer como presidente. Não me agrada mesmo. Ele não está sendo delatado? Eu sei que está. Eu não sei todas as coisas a respeito das delações, mas eu sei que tem delação contra ele”.

Poucas horas depois da divulgação da entrevista, Ela Wiecko pediu demissão a Rodrigo Janot, Procurador-Geral da República. Recentemente, o marido de Ela, Manoel Lauro de Castilho, protagonizou outra polêmica. Ele era um dos assessores do ministro Teori Zavascki, relator dos processos do petrolão no Supremo Tribunal Federal. Demitiu-se após a descoberta de que assinara um manifesto em favor de Lula.

Ela Wiecko assumiu a vice-procuradoria-geral da República em 2013. Dilma quis fazê-la procuradora-geral da República, mas Janot contava com o apoio de um maior número de procuradores. Ela Wiecho acabou como vice por pressão de Dilma. Comandou até ontem a “Operação Acrônimo”, cujo alvo principal é o governador Fernando Pimentel (PT), de Minas Gerais, companheiro de cela de Dilma na época da ditadura militar de 64.

Ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) suspeitam que Ela Wiecko tenha vazado para a imprensa informações sobre as delações à Lava-Jato de Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro, subsidiária da Petrobras, e Léo Pinheiro, ex-presidente da construtora OAS. Faz parte da delação de Machado uma conversa gravada por ele com o ex-presidente José Sarney. Machado critica duramente cinco ministros do STF.

Pinheiro, em um dos anexos de sua delação, sugere que ajudou o ministro Dias Tóffoli, do STF, a reformar sua casa em Brasília. Ao sair em defesa do colega, o ministro Gilmar Mendes afirmou que a delação de Pinheiro só podia ter sido vazada pelo Ministério Público. Janot negou, mas suspendeu as negociações em torno da delação que comprometeria Lula, Dilma e os senadores Aécio Neves (PSDB-MG) e José Serra (PSDB-SP).

Não se sabe, até aqui, se Temer foi também delatado por Pinheiro ou por outra pessoa. Sabe-se que o vídeo da TVT e a entrevista de Ela Wiecko caíram como uma bomba dentro do STF e do Palácio do Planalto. Tanto mais porque, hoje, a sorte de Dilma será decidida. Teme-se que a revelação feita pela ex-vice-procuradora-geral que envolve Temer possa ser aproveitada pelo PT para tentar tumultuar a sessão do Senado marcada para logo mais.

 

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