Feitiços de Loures e Aécio viraram urucubacas

Josias de Souza

No Supremo Tribunal Federal, pequenas mandracarias advocatícias podem resultar em grandes urucubacas. Voltaram-se contra os defendidos, por exemplo, as últimas petições dos defensores de Rodrigo Rocha Loures, o homem da mala de Michel Temer, e Aécio Neves, presidente licenciado do PSDB.

Sob o pretexto de que Rocha Loures corria risco de vida na cadeia da Papuda, seus advogados pediram que ele passasse a arrastar uma tornozeleira eletrônica em prisão domiciliar. O ministro Edson Fachin, relator da Lava Jato, transferiu o preso. Não para casa, como desejavam os doutores, mas para uma sala na Polícia Federal, em Brasília.

Na Papuda, Loures tinha banho de Sol, tevê e companhia. Na PF, foi isolado numa sala sem banheiro e sem tevê. Perdeu também o acesso ao Sol. Em nova petição, os defensores do ex-assessor de Temer pedem sua transferência para um quartel da PM de Brasília. No limite, informam que Loures prefere voltar para a Papuda. De repente, as supostas ameaças e o alegado medo de morrer ficaram em segundo plano.

No caso de Aécio, Fachin aceitou a tese de que a mordida de R$ 2 milhões que o grão-tucano deu em Joesley Batista, da JBS, não tem nada a ver com Lava Jato. Por sorteio, os autos foram parar na mesa de Marco Aurélio Mello. Com a troca, Aécio saiu do purgatório da Segunda Turma do Supremo, generosa na concessão de habeas corpus, para o inferno da Primeira Turma, que administra com parcimônia a chave da cadeia.

Na semana passada, por 3 votos a 2, a Primeira Turma manteve atrás das grades Andrea Neves, a irmã de Aécio. Nesta terça-feita (20), o colegiado apreciará pedido do procurador-geral da República Rodrigo Janot para que o próprio Aécio seja passado na chave. Os doutores que defendem o tucano pediram que o julgamento fosse transferido da turma, com cinco ministros, para o plenário do Supremo, onde se reúnem as 11 togas da Corte. O relator Marco Aurélio disse “não”.

Considerando-se o resultado dos últimos feitiços, os encrencados do escândalo JBS deveriam recomendar aos respectivos advogados mais parcimônia na administração dos feitiços.


Briga de Temer e Joesley não pode ser apartada

O presidente da República e o dono da JBS decidiram trocar insultos na frente das crianças. Joesley Batista disse que Temer é “o chefe da quadrilha mais perigosa do Brasil”. Em resposta, Temer declarou que Joesley é “o bandido notório de maior sucesso na história brasileira.” Atônita, a platéia observa o espetáculo em silêncio. Não convém discutir com peritos no assunto, pois ambos podem ter razão.

Muita gente está preocupada em Brasília com com os desdobramentos políticos do arranca-rabo. A turma do deixa-disso ameaça entrar em cena. A interrupção da desavença é o pior que poderia acontecer. A multidão vaiaria. E talvez gritasse, em uníssono: “Tem que manter isso, viu?”

Arranca-rabo nascido de um encontro fraternal do “chefe da quadrilha” com o “bandido notório” no escurindo do Palácio do Jaburu é um tipo de briga que pede para não ser apartada. Há um enorme interesse dos brasileiros pela continuidade do rififi. Estão todos ávidos para saber até onde os contendores permitirão que o melado escorra.

O espetáculo ficaria muito melhor se Lula e Aécio Neves —que Joesley acusa, respectivamente, de ter “institucionalizado a corrupção” e de ser “tão corrupto quanto os outros”— entrassem na confusão com a mesma disposição de cuspir fogo exibida por Temer.

As crianças na faixa etária de 5 a 90 anos ficariam esacandalizadas. Mas uma briga generalizada talvez ajudasse a esclarecer esse estranho período da história brasileira em que um governo em decomposição do PT foi substituído por uma administração podre do PMDB e a alternativa a ambos, representada pelo PSDB, não consegue demonstrar a diferença entre tucanos e protozoários.


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