OPINIÃO

* Carlos Eduardo de Santi

Deus e o diabo na Terra Brasilis

Circula nas redes sociais um vídeo onde um cidadão com jeitão de militar, porém à paisana, aparece em um telão concedendo uma suposta entrevista a jornalistas do Jornal das Dez, do canal pago Globo News. Durante quase quatro minutos o sujeito discorre com singular didatismo sobre o papel das Forças Armadas na manutenção da estabilidade de um país, faz um contraponto entre intervenção e ditadura militar e finaliza com o argumento de que todo governo é uma concessão do Poder Armado, sem a qual não há governo democrático. Trata-se, no entanto, de uma montagem, que aproveita a polêmica causada pela fala do general Antônio Hamilton Mourão, há duas semanas, em uma palestra em Brasília, quando disse que “seus companheiros do Alto Comando do Exército” entendiam que uma intervenção militar poderia ser adotada, caso o Poder Judiciário não solucionasse o problema político do país, envolto em um mar de lama de corrupção.

É notória a escalada popular em apoio a uma ação incisiva das Forças Armadas – que, aliás, ocupa o topo na lista de instituições confiáveis pelo povo brasileiro – a fim de conter o descalabro político em que nos encontramos. De norte a sul, a figura polêmica e caricata do militar da reserva e deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ), com sua postura “linha dura”, tem recebido cada vez mais manifestações calorosas de incentivo a uma eventual candidatura à Presidência da República em 2018. O silêncio dos militares (só quebrado após o episódio do general Mourão, ainda assim, de forma contida e não punitiva ao mesmo) soa ensurdecedor aos meios de comunicação e gera pavor entre os intelectuais e a classe artística, escaldados pelos 20 anos aterrorizantes da Ditadura Militar que ainda reverberam na memória recente do Brasil.

Por isso, é um grande tabu discutir abertamente uma hipotética intervenção militar, com seus (poucos) prós e (muitos) contras. É imperativo lembrar, contudo, que essa situação política pré-falimentar, refletida econômica e socialmente na vida nacional, decorre da putrefação ética e moral dos Três Poderes Constituídos, cujo processo de decomposição foi acelerado nos 14 anos em que o Partido dos Trabalhadores esteve no Poder.

As recentes declarações do ex-braço direito de Lula, Antonio Palocci, ao Ministério Público Federal, acusando-o de ser o “chefão” da quadrilha que tomou de assalto nosso país, simbolizam o “fim de uma Era”. Sim, porque até então, apesar de alguns ex-aliados petistas terem colocado a boca no trombone por meio de delações premiadas, nenhum outro tem o peso político do ex-ministro dos governos Lula e Dilma. Palocci caiu em desgraça no partido depois que foi para trás das grades; mais do que isso, viu-se abandonado pelo companheiro de tantas lutas, que preferiu o distanciamento para evitar máculas à sua mítica imagem autoconstruída de “homem mais honesto do país”. Assim que Palocci abriu o bico, o PT deixou aflorar sua verve stalinista, segundo a qual todo oponente deve ser desqualificado e apagado da história.

Coincidentemente, estou finalizando a leitura do livro A herança de Stalin, do jornalista anglo-russo Owen Mattheus, que conta a história de três gerações de sua família ao longo do Século XX, na antiga União Soviética. Em meio a guerras externas e casos de amor, o autor descreve com uma translucidez impressionante os estratagemas empregados pelo governo totalitário comunista soviético, através de prisões compulsórias, de condenações com provas forjadas e da eliminação sumária de todos os que ousassem pensar ou agir contrariamente à ideologia imposta pelo regime. A centralização de diversos papéis nas mãos do Estado e a postura ditatorial de Josef Stálin fez com que os ideais socialistas da Revolução Russa, de igualdade e liberdade, se perdessem ao longo do tempo. Ainda assim, Stálin era visto por muitos soviéticos como um “deus” – isto porque havia um grande culto à personalidade do ditador, fruto de uma intensa propaganda estatal e nacionalista.

Revisitar a história nos faz muito bem. Neste caso, em especial, gera-nos imunidade contra políticos populistas e dissimulados, que utilizam o bolorento e fantasioso idealismo do “combate à pobreza” para alcançarem o poder e a retórica e a propaganda como meios para atingi-lo e nele se perpetuarem.

Como escreveu o agora ex-companheiro Antonio Palocci em carta ao Partido dos Trabalhadores, em que pediu a sua desfiliação, “chegou a hora da verdade” para “o retirante que escolheu navegar no terreno pantanoso do poder sem limites”, e de toda a sua malta.

Carlos Eduardo de Santi é médico veterinário, graduado em Tecnologia da Gestão Pública, pós-graduado em Vigilância Sanitária, foi coordenador da Vigilância Sanitária e diretor de Atenção Básica na Prefeitura de Foz do Iguaçu. Servidor público de carreira desde 2000, atualmente exerce a chefia do Centro de Controle de Zoonoses (CCZ)

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