OPINIÃO

* Carlos Eduardo de Santi

O suplício do Suplicy é o nosso

O Brasil é realmente um país contraditório. O que é valorizado no mundo todo, por aqui muitas vezes é tratado com indiferença. Já àquilo que oferecemos nosso apreço, não raro também merecedor de reconhecimento em outros países, é supervalorizado em nossa cultura. Nem tudo o que os gringos admiram, evidentemente, é inquestionável. Mas há muito mérito na maior parte das escolhas feitas por nações, digamos, mais bem colocadas social e economicamente. Vou exemplificar.

Em qualquer país europeu, a apresentação de uma orquestra sinfônica é um evento de classe, que atrai multidões e mobiliza a mídia. Para quem já teve a oportunidade de assistir a uma delas, sabe o peso que isso tem na cultura local. Aqui no Brasil, eventos dessa natureza são considerados eruditos demais, elitistas. Gosto não se discute, diriam alguns.

Quer outro exemplo? Em certos países asiáticos, como a Coreia do Sul, os professores estão entre os membros mais respeitados da sociedade, fonte de verdadeira obsessão a muitos estudantes que lutam para ingressar nas cobiçadas faculdades de magistério para um dia se tornarem mestres (e os professores também são bons de mídia, podendo chegar a se transformar em celebridades milionárias). Já no Brasil, bem, em nosso país sabemos exatamente qual é o respeito dispensado aos docentes pelos governantes e pelo próprio povo.

Por outro lado, os brasileiros têm uma capacidade imensa de criar “ídolos” instantâneos, muitos deles com capacidade duvidosa em atividades artísticas e culturais e tantos outros até muito competentes, mas em ocupações de menor relevância (ou que deveriam ser assim consideradas).

É o caso dessa profusão de psedocantores sertanejos, funkeiros, MCs etc. que ofendem cruelmente nossos ouvidos com músicas horrorosas amplificadas por composições que utilizam linguagem chula e de duplo sentido. Ou de ex-BBBs e dançarinas de programas de quinta categoria, autoproclamadas atrizes, que, incensadas pela mídia apelativa e banal, desfilam seus traseiros bem cuidados nas telas de TV e caem nas graças do povo como se fossem deusas do Olimpo.

Dizem que a cultura de um país é algo intangível. Mas as manifestações culturais do nosso país, três décadas atrás, eram completamente diferentes dos arremedos pervertidos e idiotas que tomaram conta dos palcos, estúdios, salões e ruas pelo Brasil afora.

Só para ilustrar o quanto essa dicotomia vem se acentuando, na semana passada o ex-senador e atual vereador da cidade de São Paulo, Eduardo Suplicy, tentou entregar um exemplar do seu livro sobre a renda mínima de cidadania (tese que vindica há anos) ao ex-presidente norte-americano Barack Obama, que esteve em visita ao Brasil, mas foi barrado por sua equipe de segurança. Suplicy é um político atuante e reconhecidamente merecedor do respeito popular, a despeito de sua filiação partidária. Deveria ter sido tratado de maneira mais cordial. No mesmo evento, também de forma não oficial, o ex-jogador de futebol, Ronaldo “Fenômeno”, segundo testemunhas, teria sido recebido de maneira calorosa pelo ex-presidente. Essa contradição denota muito bem qual peso se dão às coisas em nossos país.

Esse episódio me fez lembrar de algo semelhante ocorrido em Portugal alguns anos atrás. Durante uma entrevista à principal rede de TV lusitana, o ex-primeiro ministro português Santana Lopes teve sua fala abruptamente interrompida pela entrevistadora para que entrasse no ar, ao vivo, imagens da chegada ao país do mais renomado treinador de futebol de sua recente história (José Mourinho). O político falava de questões importantes ligadas às eleições do seu partido e do país e ficou indignado com a atitude da apresentadora. “Eu vim com sacrifício pessoal e sou interrompido por causa da chegada de um treinador de futebol… Acho que o país está doido. Tenho que ser respeitado”, disse Lopes, após o retorno à entrevista. “Ainda se fosse um acontecimento importante do país, do mundo, que justificasse… O Presidente da República, o primeiro-ministro… Eu não vou continuar a entrevista. As pessoas têm que aprender”, finalizou resignado o ex-ministro antes de abandonar o estúdio.

Quem dera os cidadãos de bem deste nosso país tivessem postura parecida diante das questões verdadeiramente sérias que nos afligem desde sempre!

* Carlos Eduardo de Santi é médico veterinário, graduado em Tecnologia da Gestão Pública, pós-graduado em Vigilância Sanitária, foi coordenador da Vigilância Sanitária e diretor de Atenção Básica na Prefeitura de Foz do Iguaçu. Servidor público de carreira desde 2000, atualmente exerce a chefia do Centro de Controle de Zoonoses (CCZ).

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