OPINIÃO

 

Porta estreita

                Ninguém escolhe onde nascer. A decisão divina (ou o imponderável) é responsável por sentenciar alguém a nascer em meio à riqueza de alguma nação nórdica, à devastação bélica do Afeganistão, à repressão totalitária de uma Coreia do Norte ou à fome epidêmica reinante em muitos países africanos. Alguns não gostam da cidade ou do país onde deram a primeira cafungada. Outros não se identificam com as características e costumes do povo do qual descende. Uma coisa, porém, é certa: a certidão de nascimento é um atestado de origem que cada ser humano carrega por toda a vida, onde estiver.

A história do mundo nos mostra que povos e nações evoluem continuamente, influenciados pela miscigenação oriunda da subjugação de outros povos, da incorporação de escravos e da migração natural de pessoas. Brasil e Estados Unidos são dois exemplos acabados de nações concebidas dessa maneira.

No período das grandes navegações, as principais nações europeias da época – Portugal, Espanha, Inglaterra, França e Holanda – se lançaram aos mares para conquistar territórios e extrair riquezas. Em tempos menos remotos, as grandes guerras mundiais deixaram como legado o êxodo de alemães, italianos e japoneses, que encontraram em países como o Brasil o lugar perfeito para recomeçarem suas vidas.

Como os tempos mudam, influenciados diretamente pela geopolítica mundial, a realidade atual nos apresenta processos migratórios inversos, ou seja, cidadãos nascidos em países colonizados, que passam por dificuldades políticas, econômicas e/ou sociais, hoje remam em sentido contrário em busca de novas oportunidades para a sua sobrevivência (e dos parentes que ficam em seus respectivos países de origem).

Naturalmente, cada país tem autonomia para definir suas regras migratórias internas. Nações que no passado dominaram o planeta, exportando gente e importando riquezas alheias, hoje colocam barreiras migratórias a quem explorou e até mesmo a seus descendentes. Não há, no entanto, nenhuma regra no direito internacional que imponha a tais países uma espécie de “compensação histórica”.

Excetuando-se situações de cunho humanitário, em que a abertura das fronteiras para refugiados de guerra e asilados políticos é dever moral para qualquer país, nenhum Estado é obrigado a permitir a entrada de estrangeiros. Como os processos migratórios são fenômenos necessários e impossíveis de serem controlados, os países estabelecem regras próprias para evitar colapsos internos.

Como é natural o trânsito temporário de pessoas entre países (para estudos, turismo, participação em eventos de trabalho e competições esportivas etc.), o controle migratório rigoroso pelas nações mais equilibradas economicamente também deve ser considerado normal – afinal, há que se compreender que todo imigrante é uma potencial força de trabalho concorrente para os cidadãos locais e que migrações em massa de pessoas sem qualificação técnica podem gerar forte desequilíbrio socioeconômico.

O ideal é que cada país lide com seus problemas internos da melhor maneira possível a fim de desestimular o seu povo a tentar fazer a vida em outro lugar. As caravanas de migrantes da América Central, também conhecidas como Via Crúcis do Migrante, que cruzam o México para tentar chegar aos Estados Unidos, são atualmente um grande exemplo da falência social de muitas nações nessa missão.

O Brasil, a despeito de seus problemas, historicamente sempre bem-acolheu os imigrantes (na onda mais recente, recebemos sírios, haitianos e venezuelanos). Nas últimas décadas, contudo, passamos a viver também a realidade da emigração – especialmente nos últimos anos, impulsionada pela crise econômica, pelo desemprego e pelo viés político-ideológico instalado pelo governo petista.

Se os imigrantes costumam ser vistos de forma diferente (inferiorizada) pelos nativos em qualquer lugar do mundo, infelizmente, muitos brasileiros que vão para o exterior na esperança de reconstruírem suas vidas levam consigo velhos maus hábitos – que por aqui são amenizados, ou até tolerados, pela sociedade do “jeitinho”. No Japão, brasileiros têm fama de não serem confiáveis (isso mesmo, devido à ocorrência de casos de furto de bicicletas por migrantes tupiniquins); na Europa, de burlarem o pagamento de passagens nos ônibus (que em geral não possuem cobradores, somente fiscalização esporádica); e nos Estados Unidos, sua fama se deve à realização de falcatruas para permanência ilegal. Embora não se possa generalizar, a recorrência desse comportamento macula a imagem do Brasil no exterior e prejudica a todos, inclusive os viajantes bem-intencionados.

Isto posto, vale comentar a declaração dada pelo presidente Jair Bolsonaro a uma rede de televisão norte-americana, durante viagem que fez aos Estados Unidos nesta semana, segundo a qual “a maioria dos imigrantes não tem boas intenções [nem quer o melhor ou fazer o bem ao povo americano]”. Embora forte, é preciso analisar o seu teor dentro de um contexto maior (o que, lamentavelmente, os meios de comunicação e os “formadores de opinião” parecem não ter a menor disposição em fazê-lo).

Eu sempre me perguntei sobre o por quê de alguém querer viver num país estranho que não o aceita? Se os norte-americanos impõem tanta burocracia (às vezes, até humilhação) para ingresso no seu país, porque, ainda assim, tanta gente quer ir para lá? Em meio a essa polêmica da semana, li nas redes sociais uma frase (sem identificação do seu autor) que julgo muito pertinente: “existe uma porta para entrar na casa dos outros. E é necessária autorização do dono da casa. Quem está fora disso, não pode ser tido como orgulho para a nação [brasileira]”. Penso que somente pelo engajamento político e social de cada cidadão descontente poderemos mudar o estado das coisas no Brasil, e talvez esse seja um caminho menos tortuoso do que se aventurar por terras alheias hostis.

Carlos Eduardo de Santi é médico veterinário, tecnólogo em gestão pública e articulista eventual deste blog

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