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DICAS PARA GLENN

Como outro jornalista gringo intrometido, que também foi perseguido pelo governo, qual é minha postura diante do esforço de expulsar ou indiciar o Sr. Greenwald, a bola da vez?
O jornalista Glenn Greenwald em depoimento à Comissão de Direitos Humanos e Minotrias da Câmara dos Deputados, em junho Foto: Daniel Marenco / Agência O Globo
O jornalista Glenn Greenwald em depoimento à Comissão de Direitos Humanos e Minotrias da Câmara dos Deputados, em junho Foto: Daniel Marenco / Agência O Globo

Cada vez que o jornalista americano Glenn Greenwald se mete numa encrenca no Brasil, meu telefone começa a tocar, com chamadas e torpedos de repórteres brasileiros, sempre com a mesma pergunta. Como outro jornalista gringo intrometido, que também foi perseguido pelo governo, qual é minha postura diante do esforço de expulsar ou indiciar o Sr. Greenwald, a bola da vez?

Minha resposta? Em matéria de liberdade de imprensa, minha posição é sempre invariável. Independentemente da motivação ou da fonte das gravações, as reportagens do The Intercept Brasil sobre contatos duvidosos entre o então juiz Sergio Moro e promotores da Lava Jato são legítimas e importantes. Denunciar judicialmente Glenn é uma tentativa de driblar a proibição de expulsar um estrangeiro com cônjuge brasileiro, estabelecida no caso de Ronnie Biggs e reafirmada no meu. O objetivo claro, como na investida de devassar suas finanças, é calá-lo ou pressioná-lo a sair do país. Como tal, é um exercício de má-fé. E, além de ser moralmente repugnante, a ação do governo é uma estupidez política. Permitiu ao ex-presidente Lula assumir a pose de defensor da liberdade de imprensa numa coluna no jornal Washington Post. Logo ele, chefe de um governo que cogitou uma lei de mordaça da imprensa e certa vez declarou que “a gente não pode permitir que nove famílias continuem dominando a comunicação e inventando mentiras”.

Mas gostaria de apontar alguns dos quesitos em que minha situação é diferente da de Glenn Greenwald. Minha mulher não é deputada, nem está envolvida na política brasileira; o marido de Glenn, sim. Eu não era partidário de nenhuma tendência ideológica; Glenn, obviamente, sim. Minhas reportagens seguiam a orientação de meu jornal de sempre escrever “sem medo ou favorecimento”; as de Glenn são abertamente parciais, torcem para o time do marido.

“BASTA LER AS ENTREVISTAS DE GLENN COM LULA, EM QUE O TRAÇO PRINCIPAL É O PUXA-SAQUISMO”
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Eu, pessoalmente, teria vergonha de fazer perguntas tão insossas a qualquer político.

Sejamos honestos. No contexto brasileiro, Glenn Greenwald é um instrumento político do PT e seus aliados. O propósito principal das reportagens dele sobre a Vaza Jato não é elucidar fatos ou sanear abusos; sua finalidade fundamental é fortalecer a (falsa) narrativa de que Lula nunca fez nadinha de errado, ilegal ou corrupto, e que o ex-presidente condenado é vítima de uma caça às bruxas. É o mesmo argumento de Donald Trump, e é igualmente desonesto.

“O Brasil não é para principiantes”, dizia Antonio Carlos Jobim. Mas temo que Glenn ainda seja principiante — e sempre será. Ilhado em seu bunker na Zona Sul do Rio, com amizades restritas à turma de seu esposo e simpatizantes ideológicos, tem pouca experiência ou conhecimento do resto do país. Demonstra saber ainda menos da história do Brasil antes de sua chegada em 2005 e, consequentemente, tem uma visão simplista, maniqueísta, de um país extremamente complexo.

O recente confronto com Augusto Nunes mostra como não absorveu os costumes do país. A agressão física de Nunes é lamentável. Mas Glenn estava claramente provocando, e o grande erro de Nunes foi morder a isca. Todo mundo com uma gota de juízo sabe que no Brasil você não pode repetidamente chamar um homem de “covarde” e pensar que ele não vai reagir. Fala sério. Só um novato (ou alguém querendo bancar o mártir) faria uma besteira dessas.

Olha, se Glenn deseja investigar um escândalo ainda maior do que a aparente conivência entre Moro e Deltan Dallagnol, tenho uma sugestão. O sumo mistério político brasileiro do século XXI continua sendo o assassinato de Celso Daniel, prefeito de Santo André e coordenador da campanha de Lula, em 2002. Quem o matou e por quê? Sempre sustentei que a verdadeira razão pela qual Lula tentou me expulsar em 2004 era que o PT sabia que eu estava investigando o caso: numa entrevista a mim, um dos irmãos do prefeito havia citado Gilberto Carvalho e José Dirceu, assessores íntimos de Lula, como chefes de um esquema de corrupção maciço de arrecadação de fundos. Isso bem antes do Mensalão ou da Lava Jato.

Talvez Glenn não tenha ouvido falar do caso, sendo que o assassinato de Celso Daniel ainda incomoda — e quiçá implica — alguns dos correligionários dele. Mas o caso permanece sem resolução, assombrando a política brasileira, e como tal deve chamar a atenção de qualquer repórter que se preze de fazer jornalismo investigativo.

Glenn, se você topar investigar, se tiver a coragem de contrariar os interesses de seus companheiros, me ligue e eu atendo. Tenho dicas para você.

Larry Rohter, jornalista e escritor, é ex-correspondente do “New York Times” no Brasil e autor de “Rondon, uma biografia”.

 

 

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