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Mortes em Paraisópolis: não foi acidente!

Corporativismo da polícia de SP não pode prevalecer

morte de nove adolescentes pela Polícia Militar em um baile funk na favela de Paraisópolis, no dia 1º de dezembro de 2019, na zona sul de São Paulo, não foi um acidente. Foi sim fruto da atuação ilegal da tropa paulista, que rotineiramente não observa os protocolos definidos pela própria instituição em operações em bairros periféricos. E, sim, há locais determinados para que essas ações ocorram —e elas não se dão em territórios ocupados pela elite e pela classe média alta.

As discussões cabíveis ao caso sobre desigualdade social, racismo estrutural e letalidade policial são intensas e tão profundas que merecem ser tratadas em outro espaço. Trata-se aqui de refletir sobre o resultado da operação em Paraisópolis, que não pode nem deve ser esquecido.

Moradores de Paraisópolis (zona sul de SP) protestam contra a ação policial que resultou na morte de nove jovens durante baile funk – Marlene Bergamo – 14.dez.19/Folhapress

Não se pode aceitar como natural a morte da juventude negra e periférica. É inadmissível que, nas circunstâncias do caso em questão, a atuação da polícia tenha sido considerada legítima, como quis fazer crer a conclusão prematura apresentada no relatório final do IPM (Inquérito Policial Militar), que tramitou perante a Corregedoria da Polícia Militar.

Até mesmo dentro da própria PM foram trazidas informações que rejeitam as conclusões da Corregedoria. Nesse sentido, são extremamente relevantes as evidências vindas do ex-ouvidor da Polícia de São Paulo Benedito Mariano —primeiro colocado na lista tríplice e não reconduzido ao cargo às vésperas da publicação do relatório—, que também apontaram para a violação de protocolo de controle de distúrbios civis. A Ouvidoria classificou a operação como “improvisada, precipitada e desastrosa”.

Não foi acidente!

Ignorar esses fatos é ignorar o valor do direito à vida das populações periféricas, é tripudiar sobre a dor de cada familiar que perdeu um ente querido, é desrespeitar o pacto social estabelecido, em virtude do qual todo e qualquer agente infrator merece responsabilização. É ludibriar cada cidadão e cada cidadã sobre a atuação policial e, com isso, potencializar o descrédito das instituições e da Justiça junto à sociedade.

Não há saldo positivo resultante da ação ilegal em Paraisópolis. Nove vidas foram subtraídas e com elas sonhos, alegrias, realizações e esperanças. Nove famílias estão há meses em luto profundo, sendo sua dor agravada pela falta de horizonte de respostas sobre a responsabilização e reparação pela morte de seus filhos, irmãos e irmã. Apuração isenta é o mínimo que a sociedade brasileira espera.

Priscila Pamela, Flávia Rahal, Hugo Leonardo e Davi Tangerino

Advogados de familiares das vítimas da operação policial na favela de Paraisópolis, em São Paulo

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