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Hambúrguer sabor Amazonas

Algumas histórias precisam ser contadas, como essa sobre conexões Brasil – China na exploração ilegal de madeira em terras indígenas

por Aldem Bourscheit

David Runciman é escritor e professor de Política na Universidade de Cambridge (Reino Unido) e, ao jornal The Guardian, escreveu que um reflexo da tomada do planeta pelo coronavírus foi revelar “algo mais cru” sobre as lideranças políticas. Essa “hora da verdade” dividiu o mundo, por exemplo, entre estadistas que atuam em primeiro lugar pela sobrevivência das pessoas e aqueles que parecem tomados pelo espírito de Procusto, personagem da mitologia grega que simboliza a negação da Ciência e a relativização de vidas humanas.

Mas a constatação de Runciman também se ajusta como uma luva para representantes de nosso Setor Privado. Empresários como Flávio Rocha (Riachuelo), Luciano Hang (Havan) e Roberto Justus deram com a língua nos dentes e defenderam abertamente que trabalhadores arriscassem as vidas para manter seus negócios a todo vapor durante a pandemia de covid-19. Poucos foram tão explícitos quanto o paranaense Luiz Renato Durski Junior.

Atacando medidas restritivas impostas pela amplitude da doença, o empresário afirmou que “Não podemos [parar] por conta de 5 ou 7 mil pessoas que vão morrer. Isso é grave, mas as consequências que vamos ter economicamente no futuro vão ser muito maiores do que as pessoas que vão morrer agora com o coronavírus”. A pandemia levou o milionário a demitir, até agora, mais de 600 trabalhadores. Em 2019, ele teria faturado cerca de R$ 300 milhões.

Sócio do apresentador Luciano Huck e apoiador confesso de Jair Bolsonaro, Durski foi vereador em Prudentópolis (PR) e morou por 15 anos em Rondônia. No estado, atuou em garimpos como o de Bom Futuro. Da empreitada, lembra que testemunhou assassinatos e que carregava sacos de dinheiro para comprar ouro. Mas, foi comercializando madeiras da Amazônia que acumulou recursos para, mais tarde, erguer negócios como a franquia de restaurantes Madero.

Na Carta Capital, o jornalista Felipe Milanez publicou uma entrevista inédita com Durski Junior, feita em 2008, lembrando que o mesmo foi sócio da Marinebox Lumber Agency. A empresa comprava madeiras de regiões fartas em casos de violência contra pobres rurais, indígenas e servidores públicos, em Rondônia, Mato Grosso e Pará. No artigo, o empresário revela um então desgosto com seus negócios na Amazônia e assume “que queria sair do ramo de madeireiro, o qual herdou de seu bisavô, seu avô e seu pai”. A família é historicamente ligada à exploração de florestas nas regiões Sul e Norte do país.

Durski (direita) e seu sócio Huck em visita à fábrica do Madero em Ponta Grossa (PR). Foto:Rodrigo Fonseca / A Rede

ESCAVAÇÕES PÚBLICAS
 – Naquele mesmo 2008, quando Durski rumava da atividade madeireira para se tornar chefe de cozinha e proprietário de restaurantes, eu e um engenheiro florestal – cujo identidade não importa a este relato -, levantamos em bases majoritariamente públicas* informações que desenhavam um esquema envolvendo órgãos federais e estaduais, bem como empresas do Brasil e da China, na lavagem e comércio de madeira retirada de Terras Indígenas na Amazônia. Os crimes estavam conectados a negócios de Durski Junior e familiares.O trabalho foi encomendado pelo Greenpeace Brasil, que não o publicou por alegada falta de acordo com sua representação na China. As motivações da entidade para demandar a investigação envolveram, entre outras, mudanças em regras federais que repassaram a gestão de florestas aos estados. O faturamento do setor madeireiro de Rondônia, por exemplo, havia saltado 6.000% nos dois anos anteriores.

Conforme o levantamento, planos de manejo e autorizações para desmatamentos dos governos Mato-grossense e Federal eram usadas para esquentar madeira retirada das terras indígenas Kawahiva do Rio Pardo e Arara do Rio Branco. Ambas abrigam povos isolados, de pouco ou nenhum contato com a sociedade moderna. Imagens de satélite analisadas em 2007 pela Procuradoria da República no Mato Grosso (PR/MT) ajudaram a identificar a manobra.

Em seguida, inquéritos da Polícia Federal e da PR/MT conectaram a exploração ilegal de madeira e outros crimes incidindo sobre os territórios indígenas a uma série de madeireiras e empresários. Um deles era o chinês Carl Lu Weinguang. Em 2004, declarou ter comprado quase 100 mil hectares no Mato Grosso para extrair e exportar madeira à China. Outros eram ligados a Durski Junior, como Giselda Ditzel Durski e Maria Ossawski Durski, essa a mãe do empresário.

Durski Junior era sócio da Marinebox Lumber Agency, empresa dirigida por Giselda Ditzel que comercializava madeiras com as chinesas Shanghai Anxin Flooring e A&W Woods, produtoras de assoalhos de Lu Weinguang. Apenas pelo Porto de Paranaguá (PR), a Marinebox exportava à época cerca de 300 contêineres mensais de madeira oriunda da Amazônia, para inúmeros países.

Além disso, fornecedores diretos e indiretos do chinês acumulavam grande número de irregularidades ambientais, como vender, transportar, estocar e comercializar madeiras sem licença, receber produtos com documentação falsa e desmatar a floresta sem autorização. Oito empresas no Mato Grosso que comercializavam com Lu Weinguang somavam, de 1996 a 2008, mais de R$ 12 milhões em multas. Essas recebiam madeiras serradas e em tora de 124 empresas e Pessoas Físicas.

ROTA ÁSIA ORIENTAL – Há 12 anos, o engenheiro Carl Lu Weinguang era o maior importador de madeira bruta brasileira na China. Foi citado na Forbes como um dos empresários mais ricos do país. Ele tem relações comerciais com empresas no Brasil desde 1995. Um filho nascido aqui lhe permite abrir empresas nacionais.

Para azeitar seus negócios no Brasil e no Exterior, promoveu em 2005 uma “excursão” à China de 5 nativos da Terra Indígena Bakairi, de Paranatinga (MT). Em 14 cidades, apresentaram danças e ritos tradicionais (fotos abaixo). A viagem foi autorizada pela Fundação Nacional do Índio (Funai) e assessorada pelo então superintendente de Políticas Indígenas do Mato Grosso, Idevar José Sardinha.


Lu Weinguang e indígenas brasileiros em Pequim (China), em 2005.
Fotos: Chinanews e Assessoria de Comunicação do Governo do Mato Grosso
Ações como essa fizeram as empresas de Lu Weinguang se tornarem “mais atrativas” e receberem aportes como do Carlyle Group (Estados Unidos), mega companhia de investimentos ligada no Brasil a empresas como CVC, Tok&Stok e Madero.O chinês também amarrava negócios em articulações próprias ou do Governo da China com membros dos governos Federal e de estados brasileiros. A lista inclui o ex-presidente Lula, os ex-ministros Sérgio Amaral e Luiz Fernando Furlan, da Indústria, Desenvolvimento e Comércio Exterior, bem como os ex-governadores Germano Rigotto, do Rio Grande do Sul, e Blairo Maggi, do Mato Grosso.

Maggi havia visitado a China em maio de 2004 tentando engrossar negócios com o estado. Lu Weinguang encontrou o governador dois meses depois, em julho daquele ano. Na reunião, o chinês anunciou investimentos de US$ 30 milhões em uma fábrica de assoalhos em Cuiabá, capital do Mato Grosso. A planta impulsionaria exportações de madeiras para Estados Unidos, Europa e, claro, China. A reunião, no Palácio Paiaguás, foi acompanhada por Durski Junior (foto).

No Palácio Paiaguás, Blairo Maggi observa Durski Junior e a família Lu Weinguang.
Foto: Ednilson Aguiar / Assessoria de Comunicação do Governo do Mato Grosso
OLHO VIVOA movimentação e os negócios de Lu Weinguang e de empresários e fazendeiros brasileiros ligados à extração de madeiras de terras indígenas foram alvo de uma série de investigações policiais e da Procuradoria da República no Mato Grosso. Todavia e apesar das informações disponíveis em bases públicas, em setembro de 2017 o órgão informou a este que a vasculha havia sido arquivada por ausência de provas sobre os crimes descritos.

“Nesses autos apesar de constatada a materialidade e autoria, não se obteve êxito em comprovar nenhuma correlação com o empresário chinês Carl Lu Weiguang ou mesmo com a empresa Shaghai Anxin Flooring. (…) Saliente-se que, se uma investigação contemporânea aos fatos ocorridos teoricamente em 2005 e 2007 não obteve êxito, seria muito improvável que uma investigação atual, passados mais de 10 anos, alcançaria esse objetivo”, informou a PR/MT.

Enquanto isso, negócios de Lu Weinguang e da família Durski seguem ativos no país e na Amazônia. A base de multas do Ibama continua acumulando infrações ambientais por empresas ligadas a familiares do empresário paranaense. Em 2017, a Madero foi citada na Operação Carne Fraca, que investigou a adulteração de carne por grandes frigoríficos que vendem para os mercados interno e externo.

Conforme despacho do juiz federal Marcos Josegrei da Silva, da 14ª Vara Criminal Federal do Paraná, a empresa foi extorquida e pagava propina a fiscais envolvidos no esquema de corrupção, em dinheiro e produtos. O Madero, seus sócios e funcionários não foram alvo de mandados judiciais.  

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* À época, em fontes como Sistema de Comercialização e Transporte de Produtos Florestais e Cadastro de Consumidores de Produtos Florestais, ambos da Secretaria do Meio Ambiente do Mato Grosso, Ibama, Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior e Procuradoria da República no Mato Grosso.

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