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OPINIÃO

* Carlos Eduardo de Santi

Um conto sobre futebol

Era uma vez um esporte chamado futebol. Criado pelos ingleses em meados do século XIX, o futebol era um esporte praticado por milhões e milhões de pessoas no mundo todo, e os brasileiros eram o povo mais apaixonado por ele. Sua seleção era a mais condecorada da história e seus atletas, os mais habilidosos e valiosos. As crianças desde cedo se divertiam jogando futebol, chutando meias de pano dentro de suas casas ou correndo atrás de uma bola de capotão em surrados campinhos de terra batida. O sonho de muitos garotos era se tornar jogador profissional, pois assim teriam acesso a um mundo milionário e glamoroso, participariam de grandes campeonatos internacionais e se tornariam celebridades mundiais – algo tão buscado pelas pessoas naquela época. O futebol era um esporte viril, então não era incomum que atletas saíssem machucados após as acirradas batalhas campais. Nas arquibancadas, brigas entre torcedores rivais ‘pelo amor incondicional’ a seus times era fato corriqueiro.

Então, num certo dia um certo vírus apareceu na China (um país onde o futebol nem era tão relevante assim) e varreu o futebol do mapa. As pessoas foram obrigadas a se submeter a um regime de isolamento social, para impedir a disseminação do vírus. Da noite para o dia quadras e campos ficaram vazios. Estádios deixaram de ecoar os gritos das torcidas e foram convertidos em hospitais de campanha. As grandes estrelas do futebol sumiram da televisão e aceitaram reduzir drasticamente seus salários milionários durante a epidemia. Campeonatos foram sumariamente cancelados e os torcedores, antes inimigos figadais, já não brigavam mais por seus times – aliás, passaram a dividir as redes sociais com mensagens de apoio mútuo em prol da sobrevivência dos seus clubes e do próprio esporte. E assim passaram-se meses. O vírus e o isolamento social fizeram com que o futebol fosse gradativamente perdendo relevância entre as pessoas. Programas esportivos na TV já não davam mais a audiência de outrora e o cotidiano dos clubes e de jogadores se tornou irrelevante para os antes apaixonados torcedores.

Eis que num certo dia, como num passe de mágica, o vírus foi controlado; os doentes se recuperaram da doença e surgiu uma vacina para eliminar de vez o risco de novas epidemias. Os governos, empresas e instituições no mundo todo tiveram que rever suas prioridades e investimentos. Para tirar as pessoas do caos social e econômico instalado pela situação de “terra arrasada”, o futebol foi retirado do patamar de superesporte mundial e os superatletas, como Lionel Messi e Cristiano Ronaldo, do panteão dos deuses da bola. Da noite para o dia os salários dos jogadores de futebol foram drasticamente achatados, ficando mais próximos da realidade do trabalhador comum. Médicos, cientistas e professores passaram a ser vistos pelos jovens como referência de sucesso profissional – trono anteriormente ocupado por jogadores de futebol, personalidades da TV e da música. Brigas de casais deixaram de acontecer por causa do vício do futebol (de jogar ou assistir) e o esporte mais popular do planeta passou a ser ‘apenas’ um atrativo cultural, como uma peça de teatro ou um concerto musical.

Em meio a tudo isso, o despertador tocou. Era hora de acordar e retomar a rotina de trabalho, meio esquecida durante os meses turbulentos de epidemia global. Não me atrevi a ligar a televisão para ver se tudo aquilo era verdade – receava que não o fosse. Mas voltei ao trabalho mais tranquilo, com a certeza de que o confinamento forçado deve ter levado as pessoas a refletirem sobre os passos que a humanidade havia dado, para além do futebol. E que ainda havia um fio de esperança em um mundo melhor e mais justo para todos.

 

Carlos Eduardo de Santi é médico veterinário, tecnólogo em Gestão Pública e colaborador eventual deste blog

 

 

 

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