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OPINIÃO

* Carlos Eduardo de Santi

A galope

Passados quase três meses do início da pandemia do novo Coronavírus no Brasil nosso país se consolida como o novo epicentro da doença, após China, Europa e Estados Unidos. Dados consolidados até ontem (13/06) apontavam 7,9 milhões de pessoas contaminadas no mundo todo, com pouco mais de 433 mil mortos. O Brasil, com 851 mil casos diagnosticados e 42,8 mil óbitos, segue a galope os norte-americanos, até pouco tempo o principal epicentro de Covid-19 no planeta. Não é pouca coisa: o total de casos no Brasil corresponde a 11% do total mundial, e os óbitos, a quase 10%.

Embora não seja possível fazer uma análise crítica mais apurada dos números, tendo em vista que, assim como o Brasil, muitos países (em geral os mais pobres) praticamente não realizam diagnóstico em massa, e que a precisão dos testes rápidos utilizados é relativamente baixa – ou seja, em muitos pacientes infectados não são detectados anticorpos contra o Coronavírus –, temos a terrível sensação de que trata-se de uma doença grave e que o nosso país está entre os mais afetados do mundo, em números absolutos e relativos.

Segundo os especialistas em epidemiologia, o pico da doença no Brasil deverá acontecer nas próximas duas semanas (embora algumas cidades gravemente atingidas, como Fortaleza, Belém e Manaus, já estejam com sua curva de casos na descendente). O quadro atual de distribuição da Covid-19 aponta para a sua interiorização, acometendo sobretudo cidades de médio porte e se espalhando pelo Sul do país.

Não restam dúvidas de que se trata da maior catástrofe de saúde pública da história do nosso país, encontrando paralelo apenas na gripe espanhola, que assolou o mundo em 1918 e também fez grandes estragos por aqui. Esta, porém, está relegada aos livros de história, pois qualquer das gerações vivas atualmente não a conheceu. Os desafios em relação à atual pandemia são imensos: minimizar o seu impacto econômico e salvar vidas, evidentemente, estão entre as prioridades. Mas o Brasil é um país sui generis, e essa praga já nos trouxe algumas infelizes constatações.

Primeira: nossos políticos são incapazes de dialogar, de deixar suas rivalidades políticas e ideológicas de lado, e se unirem em prol do bem da coletividade, mesmo em meio a uma “guerra”. Isso ficou claro pelo boicote do presidente da República às recomendações dadas pelo Ministério da Saúde, acatadas pela maioria dos estados e resistidas por muitos prefeitos pelo país afora. As batalhas político-ideológicas travadas entre o chefe do Executivo nacional e os governadores dos estados é o pior exemplo de como se deve conduzir uma nação em meio a uma crise de tamanhas proporções.

Segunda: a corrupção não dá trégua nem no campo de batalha. A decretação de estado de calamidade pública na maioria dos estados e municípios, visando desburocratizar a compra de insumos e equipamentos para o combate à pandemia, abriu um campo fértil para empresários e agentes públicos desviarem recursos preciosíssimos destinados a salvar vidas. O superfaturamento na compra de respiradores de norte a sul do país é chocante. Apesar de o brasileiro já estar habituado a escândalos de corrupção, uma verdadeira endemia em nosso país, no cenário atual, particularmente, esse tipo de delito ainda é capaz de nos causar indignação e revolta.

Terceira: o sistema de saúde brasileiro, em especial o serviço hospitalar, agoniza. Não fossem as ações emergenciais, como a criação de hospitais de campanha e a compra de respiradores em tempo recorde, teríamos seguramente muito mais mortes por Covid-19. Uma rede (SUS) que no papel é fantástica, na prática percebemos o que 30 anos de descaso dos gestores públicos significaram. Para piorar, grande parte dessa estrutura emergencial montada será desfeita tão logo a epidemia se arrefeça e, portanto, sequer restará como legado aos cidadãos em muitos municípios do Brasil.

Quarta: nosso povo é individualista, ignorante e facilmente manipulável. A despeito das mazelas praticadas pelos nossos governantes e da fragilidade do nosso sistema de saúde (já alertada no início da pandemia), temos que reconhecer que falta aos nossos concidadãos senso de civilidade e empatia. Desde o início da pandemia pudemos constatar o quanto o brasileiro é avesso à ordem e à disciplina. Há uma horda que simplesmente entende que seus direitos individuais (como “ir e vir”) devem prevalecer sobre quaisquer outros, inclusive aos da coletividade. Essa gente se faz parecer rebelde, pensa e age por conta própria, contesta as recomendações sanitárias e infringe as normas e regras impostas para garantir o bem comum. Uma outra parcela de indisciplinados e desordeiros, ainda pior, é formada por seguidores irracionais de figuras políticas carismáticas, especialmente o presidente da República, que comete os mesmos desatinos sem nenhum propósito a não ser o de tentar provar que tudo isso não passa de um complô dos comunistas (com ênfase à China) para quebrar a economia capitalista mundial e estabelecer assim sua ideologia política sobre todos nós. Percebemos, enfim, que estamos cercados de pessoas insensíveis ao sofrimento humano (que tratam as milhões de vítimas como meros números superdimensionados pela OMS) e terrivelmente focados nos seus interesses pessoais, que incluem a minimização de suas perdas econômicas ainda que, para isso, muitas vidas sejam ceifadas.

Por não termos bem-feito a lição de casa (isolamento social rigoroso) no início da pandemia, colhemos hoje o caos. Municípios estão tendo que retroceder em suas medidas de relaxamento – o que é muito mais difícil depois de três longos meses de renúncias e incertezas – sob o risco de verem explodir o número de infectados e de mortos. Quando as coisas começam mal, não têm como terminar bem.

 

Carlos Eduardo de Santi é médico veterinário, formado em Gestão Pública e colaborador eventual deste blog.

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