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Enrolando as línguas – Fino e comprido?

A manta de carne se aproveitou do implacável dezembro em Santiago naquele ano da graça de 1997 e ficou do jeito que o nordestino gosta. Francisco, meu anfitrião potiguar, não podia passar sem ela e não encontrava nada a seu gosto no comércio local. E dependurou a peça na janela do apartamento, virada para o Mapocho.  As moscas conversaram em espanhol por vários dias, sobrevoaram a apetitosa e inatingível peça salgada, até que um dia ela sumiu da “ventana” e foi parar na panela do Francisco.

Para compensar o excesso de carne e comida nordestina consumida naqueles dias, tive que aprender a correr na Avenida Costanera ao longo do Mapocho. As tardes quentes não poderiam ser desculpa, a “siesta” tinha que ser temporizada. Menos mal que a tarde se encompridava, a noite chegava por volta das vinte e uma horas. Só aí se via toda a decoração natalina espalhada pelas árvores do bairro Providência, onde morava Francisco.

Os dias se sucediam, trabalho e casa, casa e trabalho, e apenas um tremor de terra no período. Pelo menos para mim, pois os colegas sequer comentaram – o que é o costume, não é? Quando o calor permitia, pegava o metrô e ia visitar os pontos turísticos. Palácio la Moneda, Cerro Santa Lucía, Plaza de Armas, Paseo Ahumada… Não, não fui ao Valle Nevado, nã deu tempo. Num sábado à tarde, fiquei sem peso chileno e perguntei a meu anfitrião onde fazer câmbio àquela hora, naquele dia:
– Só na Calle Uefa – respondeu, solícito e, como tudo que fazia, meio atrapalhado, meio Ligeirinho, aliás seu apelido.

Tomei o metrô em Providência e fui parar no centro da capital. Pergunta aqui, pergunta ali, não encontro a tal “Calle Uefa”. Interessante: com esse nome devia ser conhecidíssima, estar num bairro onde se homenageia o futebol, e essa rua seria homenagem à UEFA League. Perfeitamente viável. Deveria haver, portanto, Calle Conmebol, Concacaf, Calle Fifa, CBF, AFA etc. Imaginei um bairro perto do Estádio Nacional, onde o Brasil foi bicampeão mundial, e onde se concentraram os presos da ditadura de Pinochet em 73. Fosse o que fosse, cansado da infrutífera busca pela rua “Union Europeéne de Football Association”, sigla UEFA, mudei meus critérios de pesquisa e fui direto “al grano”:
– Quiero hacer cámbio. Donde hay casa de cámbio?

Quase em seguida, encontrei uma casa de câmbio, luzes piscando numa espaçosa escadaria com acesso a uma estação de metrô e passagem subterrânea. Nem precisei descer a escadaria: um senhor muito gentil, na certa um adivinho, óculos dependurados no peito, se ofereceu para trocar os cinquenta dólares, antes de eu pedir. Entendi que eu teria de esperar no alto da escadaria, ele se sacrificaria em descer os degraus, fazer o câmbio, subir de novo os degraus e voltar com meu dinheiro. Bom, mas até ontem, vinte e alguns anos depois, o amável senhor não tinha voltado. Quem sabe volta amanhã. Um hippie acampado na escadaria, testemunha ocular, avisou:
– Ele não vai voltar, atravessou pela passagem subterrânea e saiu do outro lado da rua. Já ganhou o dia, não trabalha mais hoje.
Na sequência, ajeitando-se no concreto, sorriu de lado e comentou para si mesmo, de acordo com minha tradução labial:
– Sempre um trouxa a mais!

Depois, com mais calma, entendi o mal-entendido: fui traído pela pronúncia do meu anfitrião, ele queria dizer “Calle Huérfanos” – “Rua dos Órfãos” – eu é que era culpado por não ser afeito ao sotaque do espanhol, variante potiguar.

O incidente do câmbio, porém, não mencionei ao Francisco, para que aumentar sua chilenofobia? Ele já tinha aborrecimentos suficientes em Santiago:
– Não gostam de alho, como é que alguém pode não gostar de alho? E tem mais:  chamam peru de pavão
.
Contudo, o imperdoável para ele era dizerem que o Chile era “largo”. Várias vezes me apresentou ao mapa do Chile e repetia:
– Vê se tem sentido isso aí. Largo? Largo, que nada. É fino e comprido. Por isso que não dou certo com chileno. Como é que pode confundir largo com fino?
Tentei explicar que, em espanhol, “largo” é “comprido”; que o nosso “largo” é “ancho”, mas ele não entendia ou não queria entender por pirraça. Anos depois, vi-o de novo em Brasília. Bastava me avistar para encher os chilenos de impropérios por causa de sua “ignorância” linguística e esse grosseiro erro de perspectiva:
– Largo, que país largo! O Chile é uma tripinha. É fino e comprido.

Pensei em contar-lhe, para amenizar a conversa, que o político Marco Maciel tinha o apelido de “Mapa do Chile”: magro e comprido. Preferi ficar calado, para não aumentar a confusão nem reavivar a xenofobia linguística do meu anfitrião em Santiago do Chile.
William Santiago é vice Consul Brasileiro em Ciudad del Leste. Mora em Foz do Iguaçu 

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