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O Parque é de todos. A responsabilidade é nossa.

Imagine que você é dono de uma área verde que é verdadeiro paraíso da biodiversidade, abrigando uma grande variedade de espécies raras da fauna e da flora, algumas inclusive em vias de extinção. Imagine ainda que esse gigantesco santuário, equivalente a cerca de 170 mil campos de futebol, é uma das pouquíssimas áreas de preservação da Mata Atlântica e abriga uma das sete maravilhas da natureza. Pois saiba que nós, cidadãos dos 14 municípios cuja área territorial é abraçada pelo Parque Nacional do Iguaçu, temos a responsabilidade de cuidar e tratar das riquezas desse Patrimônio da Humanidade reconhecido pela Unesco. Ele está em nosso solo e em nossas veias. Nossa economia, nosso orgulho, nosso crescimento e as perspectivas para nossos filhos e netos navegam pelas águas do Rio Iguaçu. E agora, mais do que nunca, é o momento de refletir sobre como pretendemos conduzir a relação entre a sociedade local, o turismo e a preservação ambiental nesse ambiente majestoso que o Criador colocou aos nossos cuidados.
No corrente ano entraremos em vias de novo processo de licitação pública para a concessão da administração do Parque Nacional do Iguaçu. Trata-se de um acontecimento de extrema importância para todos nós que moramos, vivemos e dependemos desse inigualável presente da natureza. A empresa escolhida irá gozar do privilégio de zelar do Parque por décadas. Em contrapartida, deverá primar por infraestrutura turística adequada; incremento nos equipamentos de transporte, segurança e conforto; e extrema seriedade e competência em tudo que se refira à preservação ambiental. É uma enorme responsabilidade. E ela vai afetar diretamente a vida de todos nós, qualquer que seja a atividade profissional que exerçamos. Duvida?
Vamos supor que você seja um servidor público. Aparentemente, você está blindado quanto a todo e qualquer efeito resultante da gestão do Parque Nacional do Iguaçu. Quer ela seja boa ou má, seu emprego e salário estarão garantidos, e sua rotina não será afetada. Agora, vamos colocar uma lupa na situação e imaginar que alguma decisão equivocada reduziu a atratividade e a visitação pública aos nossos aparelhos turísticos. O dinheiro que deixará de ser injetado em nossa economia criará um efeito cascata de dissabores sociais: com menos consumo no comércio local, teremos alta nos preços, resultando em menor poder de consumo da comunidade local. Com uma evasão de investidores e empresas, empregos serão ameaçados. Com menos oportunidades em nosso mercado, profissionais talentosos buscarão oportunidades de outros centros. Se o cenário ficar mais drástico quanto a uma recessão regional, outros efeitos ainda mais graves podem se fazer presentes, desembocando até mesmo em avanço da criminalidade. Nesse quadro, nem o hipotético servidor público do início do parágrafo estaria imune, nem ninguém.
Portanto, para que esse processo de licitação ocorra a contento para concessionários e comunidade, há duas palavras-chave que não poderão nunca ser deixadas de lado: lisura e transparência. A lisura é garantida com a criação de regras claras, oportunidades igualitárias, prazos factíveis e decisões soberanas pautadas por uma meritocracia nítida e favorável ao Parque, aos cidadãos do oeste paranaense e aos milhões de visitantes que nos chegam anualmente. A transparência fica por conta de comunicações abertas ao público e que prezem pela clareza nos conteúdos. Todo cidadão deve ter o direito de conhecer, entender e acompanhar o processo licitatório. Para muitos, inclusive, trata-se de uma obrigação, pois não poderemos nos omitir quando interesses tão valiosos a toda a comunidade estarão sendo postos em debate, já que, conforme dito, ninguém deixará de ser afetado por aquilo que for feito ao Parque Nacional do Iguaçu, seja para o bem ou para o mal.
É importantíssimo que todos entremos em campanha pela condução ilibada desse processo de licitação. E não por qualquer sentimento de desconfiança ou pelo medo insuflado por nossa fama de país com más práticas em processos licitatórios, mas porque é um legítimo interesse de todos nós. Temos de fomentar o debate, divulgar informações relevantes, acompanhar o movimento que irá orbitar as discussões que envolvem essa concessão tão valiosa.
A preocupação com o uso público de um bem tão incrivelmente precioso que é o nosso Parque não é de hoje. Em 1916, quando Santos Dumont, ao visitar nossas cataratas, soube que a área ocupada por elas havia sido doada pela antiga Colônia Militar a um proprietário particular, manifestou-se com essas palavras: “essas maravilhas não podem pertencer a um particular!”, vindo a conversar pessoalmente com o Presidente do Paraná, Afonso Camargo, apresentando pedido de criação de um parque para proteger nossas cataratas e permitir a visita de pessoas do mundo todo. E assim foi feito. Cabe a nós darmos continuidade ao bom exemplo do Pai da Aviação, considerando o Parque e suas cataratas como um patrimônio de todos, mas uma responsabilidade especialmente relevante para nós que moramos às suas margens.

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