Categorias
outros

OPINIÃO

* Carlos Eduardo de Santi

O rei do gado

Fiquei dois meses sem celular, entre os meses de julho e setembro últimos, devido à dificuldade para conseguir peça para o seu conserto. Ao cabo de tanta espera, contrariado, acabei tendo que comprar um novo aparelho (sou cabalmente contra a mentalidade consumista atual, que impõe às pessoas a falsa necessidade de ter equipamentos ultramodernos, tais quais o celular do momento ou o carro do ano, como mecanismo de autoafirmação social). Apesar de ter tido algumas dificuldades de comunicação, sobretudo no ambiente de trabalho (pois é inegável a praticidade que a telefonia móvel nos proporciona, especialmente através dos aplicativos de mensagem de texto), confesso que me senti muito melhor longe da pressão viciante que nos leva a manusear o maldito aparelhinho a cada par de minuto.

O maior alívio que a falta consentida do celular me proporcionou, no entanto, foi o “distanciamento social virtual” de pessoas e de grupos de mensagens mais prejudiciais à saúde do que o vírus causador do distanciamento social físico, o Coronavirus. Como infelizmente não é possível sobreviver alienado à tecnologia neste mundo contemporâneo, tive que respirar fundo e encarar o comportamento indesejado de alguns nas redes sociais, não sem antes eliminar o contato de muitos e me excluir de grupos sem qualquer relevância para o meu bem-estar social.

Ainda assim, um certo colega de trabalho, a quem tenho grande apreço, dia desses me bombardeou com um arsenal de mensagens non sense que mais parece terem vindo de uma seita político-religiosa da Coreia do Norte (não fosse seu cunho opostamente de direita).

A primeira pérola tratava-se da pregação de um apóstolo norte-americano que, voltando-se ao presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, profetizava – em inglês, evidentemente – ter ouvido da boca de Deus que fora o próprio Criador o responsável por colocá-lo no mais alto cargo do país, com a finalidade de “restaurar os valores da família, dos valores cristãos” e “acabar com a corrupção”, e que colocaria “homens ao seu redor para ajudá-lo nesse propósito”. E completando o sermão, afirmava que se o presidente fosse obediente a ele [Deus] o Brasil “vai ser um país onde muitas fábricas de carros virão!”. Por fim, lançou bênçãos sobre o Messias tupiniquim e declarou a sabedoria de Deus sobre ele.

Para os crentes na Bíblia não causa espanto a afirmação de que Jair Bolsonaro teria tido o consentimento de Deus para chegar ao poder. No livro de João, estando diante do prefeito da província romana da Judeia, Pôncio Pilatos, que afirmara deter “autoridade para te libertar e poder te crucificar”. Jesus confrontou o governante dizendo que “não terias qualquer poder sobre mim se não te fosse dado de cima”. Salomão e Davi, por exemplo, tiveram o aval do Criador para se tornarem reis de Israel, porém, são conhecidos os seus desvios de comportamento enquanto estiveram no poder (Davi cometeu adultério e mandou matar, entre outras coisas pouco abonadoras).

Ainda que Bolsonaro fosse realmente o “ungido”, Deus não salvaria ou traria prosperidade para o povo brasileiro se as pessoas não se convertessem de verdade aos valores por ele revelados – não bastaria a intenção e obstinação do presidente. Moisés, que foi “o cara” indicado por Deus para salvar os judeus da escravidão no Egito, vagou por 40 anos no deserto e morreu sem ter chegado à Terra Prometida (onde haveria prosperidade) justamente porque seu povo era descrente.

E o que dizer de Deus afirmando que fábricas de automóveis irão se instalar no Brasil? Será que o Criador não está preocupado com a poluição do nosso planeta, com os poluentes combustíveis fósseis utilizados nos veículos? Ou com a exploração do petróleo e de outras jazidas minerais que estão exaurindo a natureza que ele mesmo criou? Será que Deus está preocupado com a prosperidade material do povo?

Mas o mais inusitado na fala do apóstolo foi a revelação de que Bolsonaro irá acabar com a corrupção e que terá homens ao seu redor para ajudá-lo nessa missão! Esses homens devem ser os políticos do Centrão, que já se entenderam com o presidente no loteamento dos cargos públicos para tirar o peso da governança de suas costas. Já o fim da corrupção foi decretado na semana passada – eis aí um milagre imediato!

Nos outros vídeos postados por meu colega, um deles incentivava a recusa no uso de máscaras contra o Coronavirus por supostamente causarem dor de cabeça, cansaço e falta de oxigenação cerebral, além de reterem maior contaminação do que o seu não uso. Para o missivista do vídeo, “nossos governadores e prefeitos têm fetiche em impor o uso de máscaras para a população”. Noutro, um certo “doutor” comparava a taxa de mortalidade brasileira por Covid-19 com a da Bielorus, um país com menos de 10 milhões de habitantes encravado no Leste Europeu (cercado por Polônia, Ucrânia, Rússia, Letônia e Lituânia), que não tomou nenhuma medida restritiva social interna, como lock down ou isolamento social, esquecendo-se de que seus vizinhos todos fecharam as fronteiras e assim deixaram aquele país naturalmente isolado. Se tivesse feito uma comparação mais apropriada, com a China por exemplo, que possui uma população quase sete vezes maior que a do Brasil e aplicou todo rigor possível desde o início surto da doença, veria o quão deletério foi o oba-oba estimulado por Bolsonaro em nosso país.

Estamos vivendo tempos de escuridão. As pessoas parecem não perceber como estão sendo sagazmente manipuladas (e não é de hoje). Oportuna foi a declaração da advogada Rosângela Moro, mulher do ex-ministro Sérgio Moro, em seu perfil nas redes sociais, a fanáticos bolsonaristas: “Fica aí idolatrando político? Otário! É você que emprega, paga imposto e sustenta aquilo lá”.

Ê, ô, ô, vida de gado; povo marcado; êh, povo feliz! (José Ramalho).

Carlos Eduardo de Santi é médico veterinário, formado em Gestão Pública e colaborador eventual deste blog.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *