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OPINIÃO

* Carlos Eduardo de Santi

Enfim, o povo mudou… Será?

Com o encerramento do segundo turno das eleições municipais em todo o país no dia de ontem, o novo mapa de forças políticas nacionais indica que os partidos de centro e centro-direita foram os maiores beneficiados nesse pleito atípico, influenciado pela pandemia do Novo Coronavírus, que contou com número recorde de abstenções.

Dos 5.567 municípios brasileiros, o MDB abocanhou 766 prefeituras (13,75% do total), seguido por PP (672), PSD (640), PSDB (497) e DEM (458). Os principais expoentes do espectro mais à esquerda, PT, PC do B e PSoL, foram atropelados nas urnas (189, 46 e 5  prefeituras, respectivamente), conquistando pouco mais de 4% dos municípios – o Partido dos Trabalhadores, por sinal, pela primeira vez sequer conseguiu eleger prefeito em uma capital. Há que se destacar, contudo, as performances do Partido Comunista do Brasil (PC do B), em Porto Alegre-RS, com mais de 307 mil votos (45,37% dos votos válidos) a Manuela D’Ávila, e principalmente do Partido Socialismo e Liberdade (PSoL), com Guilherme Boulos, que obteve quase de 2,2 milhões de votos (40,62%) no maior colégio eleitoral do país (São Paulo-SP). Os partidos de extrema-direita ou os candidatos mais radicais alinhados com o presidente Jair Bolsonaro também falharam nas urnas. Nas capitais, apenas o candidato Tião Bocalon, em Rio Branco-AC, conseguiu uma “boquinha” (desculpe o trocadilho).

Para alguns analistas, esse contexto pode dizer muita coisa para as eleições gerais de 2022. Para outros, as peculiaridades locais nas eleições municipais (lembremos que prefeitos possuem uma proximidade muito maior com a população do que governadores e o presidente da Republica) tem impacto relativamente pequeno no cenário nacional, principalmente. Particularmente, entendo que os resultados das grandes cidades, como São Paulo, Rio, Belo Horizonte e Recife, dentre outras, têm potencial para apontar os rumos das próximas eleições, sim. Em contrapartida, de modo geral, o impacto das eleições municipais tende mesmo a ser limitado, como demonstrou o último pleito que elegeu o improvável Jair Bolsonaro e que manteve na disputa figuras carimbadas da política nacional (Ciro Gomes e Geraldo Alkmin), além do PT.

Aqui em Foz do Iguaçu a disputa pelo Executivo municipal foi ferrenha, com dois velhos conhecidos, ex-parceiros políticos e atuais desafetos. Apesar da patacoada feita pelo ex-prefeito Paulo MacDonald (Podemos) nas eleições de 2016 quando, apesar de estar inelegível, candidatou-se, venceu e acabou provocando a anulação do pleito, desta vez (ainda sob risco similar) o mesmo não vingou e então a cidade segue no caminho comandado pelo atual prefeito, Chico Brasileiro (PSD).

Já em relação ao Legislativo, muito tem se propalado sobre a histórica renovação verificada nas urnas no dia 15/11, que repeliu 13 dos 15 vereadores da atual legislatura (um deles, na verdade, nem concorreu à reeleição). Com um índice de substituição superior a 86%, parece claro o recado da população: chega dos mesmos! Será?

Em primeiro lugar é importante ressaltar que a mudança feita recentemente na legislação eleitoral, que impediu as coligações entre partidos nas eleições proporcionais, acabou com o “Efeito Tiririca”. Isto porque no sistema eleitoral brasileiro os votos são contados, primeiramente, para os partidos/coligações, depois para os candidatos votados dentro daqueles partidos/coligações. Ou seja, quando o eleitor vota no candidato X, ele está votando, na verdade, no partido/coligação (e apenas ordenando, dentro do partido/coligação, sua preferência – mas o voto foi dado ao partido/coligação, ainda que as pessoas não compreendam isso).

Depois, é preciso dar uma olhada mais acurada na classificação dos candidatos segundo o total de votos obtidos. A campeã de votos em Foz do Iguaçu neste ano foi a defensora da causa animal protetora Carol Dedonatti, com 2.709 sufrágios, seguida por Yasmin Hachem (2.228), Kalito (2.011) e Ney Patrício (2.000). O décimo quinto e último candidato eleito foi Admilson Galhardo, com 1.144 votos. Devido ao quociente eleitoral, outros candidatos – da atual legislatura inclusive, como Beni Rodrigues, Márcio Rosa e Nancy Rafagnin – deixaram de ser (re)eleitos, algo que aconteceria se o sistema eleitoral considerasse o número absoluto de votos. Vale lembrar que os três, mais a vereadora Inês Weizemann, ainda conseguiram ficar na suplência por uma vaga na Casa de Leis (e também frisar a eleição dos ex-vereadores Ney Patrício e Maninho).

Seguindo a lista de não eleitos, logo aparecem os nomes de outros edis da atual e de antigas legislaturas. Temos, com isso, a nítida impressão de que a eleição é apenas uma questão estratégica, de estar no partido certo, na hora certa, pois a grande maioria dos atuais parlamentares foi bem votado, perdendo a reeleição meramente por detalhes. Enfim, não podemos negar que houve grande renovação, é fato, mas ela de forma alguma se deu por convicção plena da população. Soa um pouco falso, portanto, quando vemos uma legião de novas caras na Câmara Municipal e tendemos a achar que a população mandou um recado claro nas urnas.

De todo modo, seja com velhos ou novos representantes, o que esperamos é que os vereadores eleitos recuperem a credibilidade moral (ensaiada no início da atual legislatura) e justifiquem a razão de existir da Casa de Leis, como poder independente, legislador e fiscalizador do Executivo municipal.

 

 

 

Carlos Eduardo de Santi é médico veterinário, gestor público e colaborador eventual deste blog. 

 

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