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OPINIÃO

* Carlos Eduardo de Santi

Fundo do poço

Costumo escrever meus artigos antepondo a ele uma charge que represente, numa imagem com ou sem texto, a essência do assunto que está sendo tratado. Sou fã dos chargistas por sua criatividade e capacidade de transformar temas complexos em mensagens visuais que, muitas vezes, valem mais do que o próprio texto em si! Desta vez, porém, a charge deu lugar a uma representação geométrica de dados, um gráfico, que vai muito além dos números: simboliza a perda de 250 mil vidas por Covid-19 no Brasil. No mundo, já são mais de 2,5 milhões de mortos. É triste, mas é a realidade com a qual nos deparamos.

Completamos nesta semana um ano desde o primeiro caso do novo coronavírus no país (na época a doença ainda nem tinha um nome de batismo), e o momento não poderia ser mais catastrófico. Além dessa terrível marca, tivemos o recorde de mortes em um único dia (25/02) – 1.582 vidas ceifadas! Nesse mesmo dia, coincidentemente, o presidente Jair Bolsonaro estava em visita a Foz do Iguaçu (para fazer um anúncio de revitalização do sistema elétrico de Furnas) fazendo o que se habituou a fazer ao longo da pandemia: causando aglomerações, cumprimentando apoiadores sem utilizar máscara de proteção e atacando seus colegas governadores e prefeitos por tomarem medidas drásticas para tentar conter a propagação do vírus e assim evitar o colapso do sistema de saúde, já na berlinda em muitos estados da federação (inclusive no Paraná).

No dia seguinte, em discurso em Fortaleza-CE, o presidente foi além: acusou governadores que estão tomando tais medidas, como o fechamento do comércio e o toque de recolher noturno, de estarem “fazendo política” e afirmou que quem decretar atos nesse sentido deveria pagar o auxílio emergencial [que deverá ser pago pela União a partir de março] para a população.

Sem ter visitado um único hospital durante todo o período de pandemia, o que demonstra sua completa falta de empatia pelo sofrimento alheio, Bolsonaro segue inflamando seus séquitos a descumprirem as medidas sanitárias preconizadas pela Ciência e pelos órgãos de Saúde e incensando-os a atacar governadores e prefeitos, que por falta de uma liderança nacional responsável e competente, acabaram ficando com a responsabilidade de zelar integralmente pelo bem-estar da população.

A situação é tão lastimável que nem a esperada – e comemorada – chegada da vacina contra o novo coronavírus foi capaz de trazer algum alívio à população. A incompetência do ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, que inclui sua inabilidade em negociar a compra de vacinas junto aos fabricantes e a total incompetência em planejar e organizar a logística de compra de insumos (que atingiu o seu auge em janeiro, com a falta de oxigênio nos hospitais de Manaus-AM), é diretamente proporcional ao seu despreparo para o cargo que ocupa.

Enquanto essas hordas demoníacas seguem pelo país semeando o caos e a morte entre as famílias, o cidadão de bem, que se cuida, que observa as medidas preventivas visando à proteção do próximo e à sua, que deposita suas esperanças no programa nacional de imunização (o qual caminha a passos de tartaruga), e que precisa do labor para manter o sustento da sua família, volta a sofrer com a paralização compulsória das atividades comerciais. Por que temos que passar por tudo isso de novo?

Temos que ser honestos e reconhecer que falhamos enquanto sociedade, enquanto humanidade. Os bares lotados e as festas clandestinas, inaceitáveis num momento de “guerra”, resumem o egoísmo de muitos. Quando, no início da pandemia, as cidades ficaram às moscas e o sinal de interrogação se fazia presente na mente de cada cidadão, imaginávamos que haveria uma transformação em nossos conceitos e valores; que a solidariedade humana, tão sumida nestes tempos de individualismo digital, prevaleceria e finalmente nos daríamos conta de que a vida é o maior bem que qualquer um de nós possui; que a união de forças faria a diferença e logo superaríamos esse período de trevas. Doze meses foram suficientes para nos mostrar que estávamos enganados. Vamos retornar à estaca zero, e desta vez conscientes de que o culpado não é o vírus, mas o próprio ser humano.

Carlos Eduardo de Santi é médico veterinário, gestor público e colaborador eventual deste blog.

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