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Presidente periférico

Pandemia escancara despreparo e desconexão institucional da aventura Bolsonaro

Bolsonarista em ato de apoio ao presidente na avenida Paulista, em São Paulo – Mathilde Missioneiro/Folhapress

Como se viu no sábado (1º), ele arrasta para as ruas um séquito assemelhado aos que acompanham os charlatães religiosos. São pessoas ressentidas com os limites que a Constituição de 1988 impõe à tirania, a expor pautas e retalhos de ideias exóticos, cuja inviabilidade num país complexo como o Brasil do século 21 vai ficando evidente.

Compelidos a camuflar os lemas escancaradamente golpistas de outrora, os bolsonaristas de parada agora destampam um “Eu autorizo”. A psicanálise poderá explicar que essas figuras liliputianas estão expressando a mensagem contrária: não podem nada; não autorizam nada fora das regras do jogo.

Sentindo cheiro da presa encurralada, enquanto se reduz a expectativa de poder em torno do presidente além de 2022, os partidos do centrão avançam sobre cargos e verbas com a voracidade dos visigodos no último assalto a Roma.

Começa para efeito prático nesta terça (4) a CPI da catástrofe sanitária, que o governo não logrou evitar nem conseguirá controlar.

A comissão de senadores não tratará de tema abstrato, diante das mais de 400 mil mortes, cifra ainda em forte expansão. Tampouco terá dificuldade para assentar a irresponsabilidade da gestão federal, e do presidente da República em particular, no combate à pandemia.

Bolsonaro mostrou-se incapaz de recomendar cautelas à população cuja vida corria risco e de compadecer-se com enlutados. Foi vetor de aglomerações e atitudes lesivas à saúde. Sua incompetência —direta e derivada de auxiliares ineptos que nomeou— privou o país de dezenas de milhões de doses tempestivas de vacina, de drogas e oxigênio para doentes que sufocavam.

A pandemia, com seus desafios prementes e ubíquos, concorreu para escancarar todas as fraquezas políticas e gerenciais constitutivas da aventura Bolsonaro. O potencial danoso do despreparo técnico, aliado à desconexão orgânica com partidos e agentes institucionais, tornou-se indisfarçável sob o crivo da emergência sanitária.

Não surpreende que Jair Bolsonaro vá retornando às margens do sistema, agora trajando a faixa presidencial. Decisões importantes para o país contornam o Palácio do Planalto —anomalia que se tenta arrastar penosamente até 2022.

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