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OPINIÃO

Minha vida por uma selfie

Um cenário aterrador, digno de guerra. No início da madrugada da última segunda-feira, uma horda de bandidos fortemente armados atacou três agências bancárias na cidade de Araçatuba, no interior de São Paulo. A ação criminosa durou duas horas, com tiroteio e a fuga de cerca de 20 criminosos. Três pessoas acabaram mortas (dois deles, moradores) e outras cinco ficaram feridas. Três suspeitos foram presos.

A ação cinematográfica foi muito bem planejada e executada: veículos foram incendiados para fechar vias de acesso à cidade e atrapalhar a chegada da polícia, inclusive o aeroporto; artefatos fabricados com dinamite e acionados por celular ou sensores de proximidade foram espalhados pelas ruas; pedestres e motoristas que circulavam pelo local foram abordados e feitos de “escudo”; até um drone foi utilizado para monitorar a chegada das forças policiais. Os criminosos vestiam coletes à prova de bala, botas militares, luvas e capacetes ou balaclavas na cabeça. A data escolhida para o crime também foi cuidadosamente pensada, pois no fim do mês os bancos públicos (alvos da ação) costumam ser abastecidos com grande volume de dinheiro vivo para o pagamento de benefícios sociais no início do mês seguinte.

O ataque chocou a população não só pelo poderio do arsenal utilizado, mas também pelo fato de ter ocorrido em uma cidade onde existe um Batalhão de Ações Especiais de Polícia (Baep). Investigações preliminares apontam a participação de integrantes da facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital). No início da manhã, policiais do Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate) realizaram uma varredura nas imediações e encontraram 32 explosivos dispersos pelas ruas. Em um caminhão abandonado pelos criminosos havia 29 artefatos e 70 cartuchos de emulsão (material explosivo usado para a produção de bombas). No total, mais de 100 quilos de explosivos foram detonados em um aterro sanitário da região.

No que já está sendo chamado de “Novo Cangaço” (em alusão ao famoso Cangaço do sertão nordestino, ocorrido entre o século XVIII e meados do século XX, um fenômeno de banditismo, crimes e violência que teve Lampião como seu maior expoente), criminosos vêm aterrorizando pequenas e médias cidades do interior paulista e de outros estados da região Sul do país. Em dezembro do ano passado, o município de Criciúma, em Santa Catarina, viveu uma madrugada de terror após uma quadrilha de criminosos armados com explosivos, pistolas e fuzis sitiar a cidade para assaltar uma agência bancária. Em julho de 2020, em uma ação coordenada também durante a madrugada, um grupo de cerca de 30 criminosos atacou três agências bancárias na cidade de Botucatu, no interior paulista. Um ano antes, em abril de 2019, na pacata cidade de Guararema, na Grande São Paulo, uma tentativa frustrada de roubo a banco resultou na morte de 11 criminosos e na fuga de outros 14.

Infelizmente, essas ações têm se repetido e não vislumbramos no cenário atual condições favoráveis para que as forças de segurança impeçam a ocorrência de novos casos, ao menos no curto prazo. Do ponto de vista social, a exposição recorrente a situações desse tipo tende a desensibilizar a população, que já se acostumou a ver corpos caídos pelo chão nas grandes metrópoles, vítimas de crimes de homicídio, reiteradamente mostrados nos programas populares de televisão. Quanto mais frequentes se tornam, menos impacto e indignação causam às pessoas, que passam inclusive a interagir com as situações (quem já não viu crianças exultantes dando um “tchauzinho” para as câmeras de TV em meio à multidão aglomerada nesses locais?).

E algo estarrecedor, nessa linha, aconteceu em meio ao horror de Araçatuba. Em consequência de uma atitude irrefletida, inoportuna e irresponsável, um empresário de 38 anos foi alvejado na cabeça por um tiro de fuzil e acabou morto. Apesar do cenário catastrófico estabelecido, o proprietário de um posto de gasolina resolveu filmar o tiroteio entre bandidos e a polícia, fazendo inclusive troça da situação. Nas imagens divulgadas pela imprensa é possível escutá-lo falando: “Pera aí, é o Renatinho, vou trocar uma ideia com vocês aí”. Em seguida, diante do barulho de tiros, emenda: “Não deu muito certo, não. O cara não gostou, não. Falei que ia trocar uma ideia com ele. Também quero uma fatia, filho”. Pouco depois, percebe-se que o homem balbucia ter sido atingido por um tiro. Seu corpo foi encontrado pela polícia ao lado de um veículo, momentos depois. O empresário deixou mulher e duas crianças.

Naturalizados na nossa rotina, os atos de tirar selfies e de fazer filmagens de si próprio já se tornaram um verdadeiro vício. Em muitos casos, esses atos vêm acompanhados de certa dose de adrenalina, visto que muitas pessoas (jovens, na maior parte das vezes) parecem instigadas a fazê-los em locais ou em situações de alto risco. A alegria do momento ou a expectativa de “causar” nas redes sociais, com a publicação posterior das fotos ou vídeos, no entanto, nem sempre acabam bem. Um compilado divulgado pelo site Infiki revelou, a partir de notícias catalogadas pela mídia mundial nos últimos 10 anos, que pelo menos 330 vidas foram perdidas no simples ato de tirar uma foto de si mesmo no momento errado. Segundo o artigo, a Índia lidera o ranking de país com casos de “selfies mortais”, com 176, seguida dos Estados Unidos e da Rússia. As situações são variadas e inusitadas: morte por queda de penhasco, afogamento, eletrocussão e até mesmo por atropelamento em linhas ferroviárias. No Brasil, um dos casos mais recentes ocorreu em dezembro de 2020, quando um jovem de 22 anos morreu após cair de uma cachoeira com mais de 10 metros de altura. Tempos loucos, em que a vida parece ser menos importante do que um momento de destaque.

Carlos Eduardo de Santi é médico veterinário, gestor público e colaborador eventual deste blog.

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