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Vaga para Presidente

         O telefonema me assustou: quatro da manhã, pensei que papai tinha morrido. A voz me pareceu conhecida, queria saber se eu poderia ser o próximo presidente, eu sonolento, demorou a cair a ficha. Por que fui atender? Quem será que passa trote a uma hora daquelas? Perdi o sono. Estava p. da vida. Com raiva, meti o telefone no gancho, que absurdo. Ato contínuo, chamaram no celular, “olha não é trote, Adalton. Atende a linha fixa. Aqui é o Pamplona”.
– Pamplona? O senador?
– Ainda, Adálton, ainda, até os xiitas me pegarem.
Atendo na linha fixa.
– É sério. Precisamos de você.
– Senador, isso me parece uma brincadeira. Quando é que vou saber o final?
– É sério, o país não tem mais ninguém. Precisamos de você, repito. Você tem tudo para ser o próximo presidente. Por nossa sobrevivência, nós e os outros vamos te apoiar.
– Senador, juro que acho que está brincando comigo.
E retruquei, desfiando uma lista de quarenta nomes de políticos conhecidos, mais para desencargo de consciência ou, quem sabe, para provocar o fim da piada.
– Adalton, todos presos, Adalton. Todos presos! Não sobrou um, nem dos nossos nem dos deles. Nenhum! Querem acabar conosco. Você ainda não é conhecido, que eu saiba não tem rabo preso. Por isso te imploramos que aceite.
– Mas e o senhor, senador? Não há nome melhor.
– Estão me investigando. Aquela bobagem da mala de dinheiro. Vou ficar enrolado e fora de combate, por enquanto.
Estava desatualizado, nem sabia dessa do Pamplona. Parei de ler jornais e acompanhar os noticiários na tevê há uns seis meses, meio por depressão, por ter feito sessenta anos, meio por raiva dessa classe, da qual estou refém.
– Entendeu, Adalton? Entendeu? Estou falando sério. Dá pra me escutar mais uns quinze minutos? Vou te contar como chegamos a você como candidato de união nacional
– Tá certo, senador, mas e o Márcio? Você elogiava, gostava tanto dele!
– Não pode mais. Foi vetado porque era um esquerdista que furava a fila do bandejão na universidade, inadmissível. Os outros o crucificaram. Fizeram esse tal escaneamento flashback, voltaram até 1985 e agora ele tá mal na fita. Coisa à toa, mas não dá mais. Os xiitas da moral estão por todo lado. Qualquer pecadilho, qualquer – e estás no sal.
– E o Júnior?
– Falsificou cheque do pai pra botar gasolina, quando tinha 19 anos, coisa de garoto. Certo que pagou depois, mas a intolerância hoje é mais que um xiitismo. Também o pegaram com essa novidade tecnológica, o tal escaneamento flashback. O crime, se falsificar cheque é crime, já está prescrito, mas a opinião pública, você sabe… Os procuradores não perdoam.
– E o Sandoval? Gaúcho sem jaça, sem mácula. Por esse aí, ponho a mão no fogo.
– Por essa você não esperava: aquele jesuíta de merda falsificou a assinatura da mãe na agenda escolar, quando tinha 11 anos de idade. Está manchado também. Basta botar isso na imprensa, ele está morto politicamente. Não dá mais para apostar nele.
Procurei escapulir:
– Mas senador, esses procuradores, esses juízes são mesmo santos? Eles podem condenar assim, assim?
– A gente vai saber no futuro, impossível que não tenham rabo preso. Já estamos, nós e os outros – nisso aí somos unidos – a rastrear todos eles. Mas agora são eles que mandam, direcionam tudo. E aí? Aceita, aceita, por favor, aceita, questão emergencial de governabilidade.
Perguntei onde é que tínhamos falhado, tudo esteve sempre sob controle, nem eles nem nós íamos entregar uns aos outros, afinal era a sobrevivência, a alternância mútua, o teatro perfeito, mas o senador estava também sem resposta. Em algum lugar a máquina destrambelhou de vez. Já tivemos desassossegos assim no passado, parecia que nosso mundo iria ruir, mas as raposas sempre acharam um modo de sobrevivência.
Pedi um tempo e desliguei. Tinha que falar com a patroa. Não sabia como começar, mas acho que ela não iria se opor. Afinal, aceitarei resignadamente pela Pátria, assim mesmo: com letra maiúscula e mão direita espalmada no coração, Hino Nacional no vídeo clipe, candidato de união nacional.
Só espero que ela não conte a ninguém que faço gato com tevê a cabo e entro no cinema com carteira estudantil falsificada. Os xiitas da moral também me crucificariam.

William Santiago é vice Consul do Brasil em Ciudad del Este (PY) residindo em Foz do Iguaçu.

9 respostas em “Vaga para Presidente”

Ao contrário da congratulação que dei ao excelente artigo escrito pelo Sr. William Santiago sobre o Sebo do Amadeu, dias atrás, desta vez só posso lamentar a relativização que o mesmo faz em relação a condutas antiéticas (para dizer o mínimo) enraizadas na sociedade brasileira. Evidente que não cometer erros é um desafio quase impossível ao ser humano (um deslize no trânsito, por exemplo, não torna ninguém um criminoso contumaz), mas o que se espera das pessoas – especialmente dos formadores de opinião – é estimular a sociedade a agir com retidão, respeito ao próximo e ao erário. Não se trata de puritanismo, mas de separar o certo do errado. O jeitinho brasileiro é o grande moinho da corrupção e da criminalidade que assola nosso país e ninguem parece se dar conta disso. Ou talvez não queira mesmo. Enquanto tolerarmos isso, seremos eternamente um país atrasado e desigual.

Li o seu artigo William Santiago e me alembrei de algumas cositas:
1. Daquela musiquinha “se gritar pega ladrão / não fica um, meu irmão!”
Sumiram todos!!!
2. Do Stanislau Ponte Preta (Sérgio Porto) e seu FEBEAPÁ – Festival de Besteiras que Assola o País.
Como o Brasil anda para trás, elegendo quem nada faz.
3- Da sentença de Rosa, Guimarães: “Viver é muito perigoso”, mormente no Brasil.
4- Da famosa rima jocosa do Pedro Bernardo, o rimador, da Catita:
Moro na Rua do Poção, / pra lá de minha casa / tem mais casa não. / Só a do Zé Guariba, / que é ladrão fida truta / que é mais pra riba. / É a vida!!!

De Rosa a Zé da Catita, passando pela música e o Ponte Preta, todos irão coincidir. Quanto ao meu texto, se inspirou na “inquisição” da Lava-jato e no vácuo político que gerou a polarização de 2018.

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