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A esquerda e a unidade democrática contra Bolsonaro

Os atos de 2 de outubro serão o próximo capítulo

Nos últimos dias, vimos uma enxurrada de críticas à esquerda —em especial ao PSOL e ao PT— pela decisão de não participar dos
atos do dia 12. O tom é o de que não queremos a união de forças contra Bolsonaro e que privilegiamos as diferenças eleitorais em relação à unidade democrática. Respeito os militantes que decidiram ir ao ato –e em nada ajudam os ataques virulentos que alguns sofreram. Mas precisamos entender o que está em jogo para pensar os próximos passos.
Protesto contra Bolsonaro na avenida Paulista (SP) no domingo (12/9), organizado pelo MBL, com participação do governador João Dória, do ex-ministro Luiz Henrique Mandetta e outras figuras políticas – Ronaldo Silva/Futura Press/Folhapress

Qual o significado do fiasco da mobilização liderada por MBL e Vem pra Rua? Primeiro, a demonstração cabal de que esses movimentos tiveram sua base social fagocitada pelo bolsonarismo. Ao romperem com Bolsonaro, ficaram sozinhos; vieram os líderes e a máquina digital, mas a força de mobilização ficou com o capitão. Segundo, a constatação evidente de que a chamada terceira via não tem empolgado muita gente.

As duas forças capazes de mobilizar multidões no Brasil seguem sendo o bolsonarismo e a esquerda. Esse fato foi comprovado no domingo (12/9), mas não deve nos levar a conclusões arrogantes, de autossuficiência. A esquerda sozinha não tem condições de derrotar Bolsonaro. Se tivéssemos, ele já não estaria na Presidência. Isso quer dizer que, para avançarmos em direção ao impeachment —que deve ser, sem vacilações, a nossa estratégia— é preciso ampliar o leque.

É evidente que isso não significa que a esquerda deva aderir a mobilizações lideradas por eles ou às suas pautas, como muitos cobram. Movimentos como o MBL não têm autoridade nenhuma para liderar a luta contra Bolsonaro, até por terem utilizado os mesmos métodos bolsonaristas, de fake news e ataques covardes, contra a esquerda e movimentos sociais. Na verdade, não é no MBL que devemos focar, mas nas forças políticas capazes de alterar o xadrez de votos na Câmara a favor do impeachment.

Se formos capazes de atrair esses setores para as manifestações contra Bolsonaro, o cenário pode mudar. É muito relevante o simbolismo de um palanque amplo pela democracia, que defenda também as bandeiras populares da luta contra a fome, a inflação e o desemprego, com a grandeza que a atual encruzilhada nos exige. Isso não significa unidade eleitoral para 2022, apenas o rechaço uníssono às ameaças golpistas que colocam o Brasil e as próprias eleições em risco. Os atos de 2 de outubro serão o próximo capítulo. O desafio é combinar mobilização popular com amplitude democrática.

Guilherme Boulos

Professor, militante do MTST e do PSOL. Foi candidato à Presidência da República e à Prefeitura de São Paulo.

Guilherme Boulos

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