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OPINIÃO

* Carlos Eduardo de Santi

 Monstros S/A

Assustador, chocante, perturbador. Não há outra forma de expressar o espanto diante das revelações feitas na CPI da Covid durante a oitiva de Pedro Benedito Batista Junior, diretor-executivo da rede Prevent Senior, uma das maiores operadoras de saúde do Brasil, com mais de 500 mil clientes, e especializada no atendimento a idosos. Batista Júnior foi acusado por senadores de mentir e de ter trabalhado em conjunto com o chamado “gabinete paralelo” de aconselhamento ao presidente Jair Bolsonaro, que atuaria no Ministério da Saúde. Após seu depoimento, o executivo passou da condição de testemunha a investigado.

Uma das irregularidades levantadas pela CPI seria a de que os pacientes que adentravam os hospitais da rede eram submetidos a tratamentos experimentais manipulados para demonstrar a eficácia dos remédios que compõem o chamado “kit Covid”, como hidroxicloroquina e azitromicina. Segundo reportagem feita pelo jornal O Estado de S. Paulo, 15 médicos que dizem ter trabalhado para o plano de saúde entregaram um dossiê de mais de 2.000 páginas à comissão do Senado apontando as irregularidades. Um médico que trabalhava na Prevent Senior afirmou que o resultado estava pronto antes mesmo da conclusão do estudo. Informações divulgadas pelo canal de TV GloboNews, com base no dossiê, revelam que a operadora ocultou mortes de pacientes com e sem o diagnóstico de Covid-19 e há relatos de familiares de algumas dessas pessoas de que o plano de saúde não as informou sobre o procedimento que estava sendo adotado. O Ministério Público Federal, o Conselho Regional de Medicina de São Paulo e a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) investigam o caso.

Segundo as denúncias, uma das metodologias utilizadas para tentar “comprovar” a eficácia dos medicamentos era ocultar na certidão de óbito a verdadeira causa da morte – Covid-19 – em pacientes que morriam mesmo após serem submetidos ao kit de drogas experimentais. Isso era feito mediante a troca do código de diagnóstico (Código Internacional de Doenças – CID), uma exigência legal que subsidia os gestores públicos na implementação de políticas públicas de saúde, de acordo com a prevalência das doenças.

Um dos casos emblemáticos contidos no dossiê envolve a mãe do empresário Luciano Hang. Regina Modesti Hangi morreu em fevereiro deste ano, aos 82 anos, após ser internada com Covid-19 no hospital Sancta Maggiore, em São Paulo, mas sua declaração de óbito teria sido fraudada, visto que no prontuário médico constava que a morte ocorreu em decorrência de uma pneumonia bacteriana. Após a repercussão do caso, Hang emitiu uma nota onde negou que a mãe tenha sido tratada preventivamente com os medicamentos do chamado “kit Covid”, afirmando que a mesma era portadora de diversas comorbidades, como diabetes e insuficiência renal e que, por isso, não poderia receber o referido tratamento. De acordo com a reportagem do Estadão, no entanto, o dossiê indica que “o prontuário médico da sra. Regina Hang prova que ela utilizou o kit antes de ser internada e que repetiu o tratamento durante a internação, assim como registram que seu filho, sr Luciano Hang, tinha ciência dos fatos”. Hang é um dos mais fervorosos apoiadores bolsonaristas, negacionista ferrenho da pandemia e incentivador contumaz do tratamento precoce com drogas com comprovação científica de ineficácia.

Outra vítima da Covid-19 foi o pediatra e toxicologista Anthony Wong, também defensor do “tratamento precoce”. Segundo denúncia de ex-médicos da operadora, Wong teria sido internado com sintomas de Covid-19 e morrido em decorrência da doença, em janeiro deste ano, aos 83 anos. Era a segunda vez que o médico contraíra a doença. Na primeira, no início da pandemia, em abril de 2020, havia se recuperado bem. Numa excelente reportagem produzida pela revista Piauí (“A morte em segredo”), que teve acesso ao prontuário médico, consta que no dia da sua internação Wong autorizou ser medicado com o “kit Covid” da Prevent Senior, composto de hidroxicloroquina, azitromicina e ivermectina. O tratamento precoce durou quatro dias, e Wong passou a usar outros remédios, todos sem comprovação pela ciência. Juntamente com essa leva de tratamentos experimentais, Wong recebeu mais de vinte sessões de ozonioterapia retal, tratamento que até mesmo o Ministério da Saúde no governo Bolsonaro desaconselha. A medicação não ajudou na sua melhora e o médico foi intubado quatro dias depois da internação. Ficou quase dois meses internado antes do óbito, cuja certidão não faz menção alguma à Covid-19. Ainda segundo o prontuário, a médica responsável pelo paciente era Nise Yamaguchi, imunologista e oncologista acusada pela CPI de fazer parte do “gabinete paralelo” e afastada do hospital Albert Einstein depois de ter feito declarações na qual comparou o medo de pegar Covid à reação do povo judeu diante do nazismo. Chama a atenção também o fato de que tudo isso foi escondido por 123 profissionais do hospital da Prevent Senior.

Assim como Luciano Hang, Antony Wong era uma figura declaradamente negacionista. Em razão disso, virou celebridade nas redes sociais bolsonaristas, postando vídeos em que desprezava a pandemia e a vacinação. Compunha um triunvirato tóxico com Nise Yamaguchi e o virologista Paolo Zanotto, suposto idealizador do “gabinete paralelo” e manifestadamente contra a vacinação em massa.

Para quem não se recorda, o primeiro óbito em território nacional foi registrado no hospital Sancta Maggiore, em março de 2020. No fim do mesmo mês, a Prevent Senior já acumulava 61 mortes, o equivalente a 30% do total de vítimas fatais por coronavírus no país. Nos primeiros quatros meses da pandemia, os hospitais da rede registraram 673 mortes pela doença. Na esfera judicial, entretanto, as investigações contra a Prevent Senior não deram em nada, e o alastramento da calamidade pelo país ajudou a tirar o foco da companhia.  Na ocasião, o CEO Fernando Parillo afirmou que “fomos vítimas de interesses políticos, era mais fácil bater na nossa empresa do que ter um plano de ação”, referindo-se às duras críticas feitas pelo Ministério da Saúde e à ação da Vigilância Sanitária. Com as informações contidas no dossiê apresentado à CPI possivelmente haverá indícios para se fazer uma conexão entre ambos os fatos.

À medida que a CPI avança no Senado ficamos mais estarrecidos com a picaretagem e a falta de humanidade das pessoas em meio ao maior flagelo sanitário da história do Brasil. Políticos, pseudoempresários, burocratas e até mesmo alguns profissionais de saúde parecem estar mais preocupados em aferir dividendos políticos e econômicos do que em garantir a saúde das pessoas. A vida é facilmente trocada por um punhado de dinheiro. As atrocidades evidenciadas no caso da Prevent Senior e o comportamento errático de alguns médicos (e do empresário Luciano Hang, diante da própria mãe, com indicam os fatos) invariavelmente nos trazem à mente os experimentos médicos sórdidos praticados nos campos de concentração nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. A que ponto chegamos!

Carlos Eduardo de Santi é médico veterinário, gestor público e colaborador eventual deste blog.

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