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Isolamento do Brasil aumentará ainda mais na Europa pós-Merkel

Bruno Abbud – O Globo

Desde 2019, as relações diplomáticas entre a Alemanha, a maior economia da Europa, e o Brasil sob Jair Bolsonaro são frias. Na era pós-Angela Merkel, que deixará o governo depois das eleições do próximo domingo, tendem a se tornar tão geladas quanto o inverno em Berlim. Analistas políticos ouvidos pelo GLOBO na Europa afirmam que, caso se concretizem as previsões eleitorais – as eleições estão acontecendo hoje -, e nos principais cenários das subsequentes negociações para formar a coalizão que governará o país, a diplomacia entre os dois países, já abalada, deve praticamente congelar.

Desde o início do governo Bolsonaro — e desde que os repasses do governo alemão ao Fundo Amazônia foram interrompidos, que um ministro brasileiro apareceu em um vídeo imitando um figurão nazista, que houve aumento dos desmatamentos e focos de incêndio em florestas brasileiras e que o presidente brasileiro se aproximou da extrema direita alemã, por exemplo —  o país de Angela Merkel mantém-se afastado de conversas com o governo federal.

—  É notável o esfriamento das relações desde que Bolsonaro chegou ao poder —  afirma Sérgio Costa, professor de Sociologia e diretor do Instituto de Estudos Latino-Americanos da Freie Universität, de Berlim. —  Se o Partido Social-Democrata (SPD) comandar o novo governo, é evidente que o distanciamento se aprofundará. A cooperação acadêmica e científica e a diplomacia cultural continuarão na medida em que o Brasil investir suficientemente para manter acordos científicos bilaterais, mas novos acordos e as demonstrações mais efusivas de aproximação, como houve desde ao menos os governos de Fernando Henrique, continuarão escassas ou mesmo inexistentes.

As pesquisas mostram uma disputa apertada, mas com liderança dos social-democratas, que hoje governam em coalizão com os democratas cristãos de Merkel. O SPD — cujo candidato, Olaf Scholz, é o atual vice-chanceler e ministro das Finanças —  lidera na média das sondagens, com 25% das intenções de voto. Em segundo lugar, com 21%, vem a União Democrata Cristã (CDU) da atual chanceler, que tem Armin Laschet como candidato apoiado por ela. O terceiro lugar é dos Verdes, que lançou ao páreo Annalena Baerbock, com 15%.

Diferentemente do que acontece no Brasil, no parlamentarismo alemão a população elege o parlamento, de 709 assentos, que, por sua vez, escolhe o novo chanceler. A escolha é feita durante conversas que podem durar um mês —  ou seis.  A única coisa dada como quase certa é que os Verdes participarão de qualquer futura coalizão de governo.

Abismo diplomático

Num exemplo do abismo diplomático entre Brasil e Alemanha, as últimas visitas de dois ministros alemães ao país aconteceram em 2019. Em ambas ocasiões, nas quais nenhum acordo com o governo federal foi anunciado, a Alemanha preferiu buscar o diálogo com organizações da sociedade civil.

—  O isolamento do governo brasileiro é tão grande que uma das ações mais significativas de aproximação do ministro das Relações Exteriores Heiko Maas com o Brasil se deu não pela via governamental, mas buscando o contato diretamente com a sociedade civil, no caso, com movimentos de mulheres no Brasil e na América Latina —  diz Sérgio Costa.

Maas esteve em Salvador em abril de 2019, para inaugurar uma rede internacional de apoio a mulheres. No evento, discursou para representantes de ONGs como o Instituto Maria da Penha, a Associação Redes de Desenvolvimento da Maré e a Rede de Mulheres Negras da Bahia. Em Brasília, se reuniu com Bolsonaro e o então chanceler Ernesto Araújo, com um pronunciamento conjunto protocolar. Mais tarde, esteve com representantes da Central Única dos Trabalhadores (CUT).

Em visita em julho de 2019, o ministro alemão do Desenvolvimento, Gerd Müller, escolheu se reunir com ambientalistas e líderes indígenas.

— O verniz diplomático que ainda se mantém pode mudar num governo Scholz, principalmente se ele governar com os Verdes e A Esquerda. Pode haver cobranças mais duras de proteção ao meio ambiente e de observação de direitos sociais, condicionando-se, por exemplo, a importação de carne ao cumprimento de critérios de sustentabilidade social e ambiental. Não seria impossível haver sanções comerciais ao Brasil na medida em que o governo brasileiro ameace direitos de minorias, a democracia e o clima —  afirma Costa.

Clima, clima, clima

A proteção do clima, aliás, será um tema cada vez mais discutido no futuro da Europa e do mundo, segundo o cientista político Werner Reutter, professor do Instituto Otto-Suhr de Ciência Política da Freie Universität, de Berlim —  o que emperra ainda mais as relações do governo Bolsonaro com as potências europeias.

—  Os principais desafios da Alemanha são, no curto prazo, formar uma coalizão. No longo prazo: mudanças climáticas, mudanças climáticas, mudanças climáticas —  enfatiza Reutter.

Para ele, o acordo comercial UE-Mercosul — anunciado em 2019, mas que depende da ratificação dos países para entrar em vigor —  deve estagnar diante da agenda de proteção climática.

—  Existe uma oposição considerável de vários Estados membros da União Europeia, que veem o acordo como um instrumento neoliberal que prejudica os recursos naturais e a justiça social.

Na visão de ambientalistas —  e do movimento Fridays for Future, de Greta Thunberg, que planeja uma passeata mundial nesta sexta-feira — , o acordo significa o aumento instantâneo de conflitos sociais, do desmatamento e da pressão por terra e água na América Latina, ao permutar carne, etanol e soja por carros.

—  A ratificação em curto prazo não é uma meta realista – diz Ludwig Essig, ativista e especialista em Comércio Exterior do Instituto Ambiental de Munique —  O acordo é prejudicial ao clima porque é um comércio baseado em carnes, carros grandes e pesticidas, enquanto deveria estar voltado para a população e o meio ambiente, e não nos interesses por lucro a curto prazo de poucas pessoas.

Ainda há muita especulação sobre a coalizão que vai liderar a Alemanha após as eleições, mas nenhuma favorece a relação com o Brasil de Bolsonaro. A principal aposta é numa aliança do SPD com os Verdes. A dúvida é se essa coalizão precisaria de um terceiro partido para chegar à maioria parlamentar — especula-se tanto com o Partido Democrático Liberal (FDP), à direita, quanto com A Esquerda, formada por dissidentes social-democratas e egressos do antigo Partido Comunista da extinta Alemanha Oriental.

—  A tendência é que nenhum partido tenha mais que 30% do eleitorado, o que obriga a coalizões. Muitas vezes, com três partidos. Isso gera mais imprevisibilidade na formação do novo governo. Mesmo que o SPD tenha mais votos que a CDU, não é impossível que Laschet lidere a coalizão com Os Verdes e os liberais e se torne chanceler. O jogo continua ainda indefinido —  diz o sociólogo Costa.

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