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As lições da CPI da Covid

Omar Aziz

A CPI da Covid no Senado caminha para o seu final fazendo história e superando o descrédito de quem apostou que ela acabaria em pizza. Em cinco meses de comissão, os senadores provaram o cometimento de vários crimes, que contribuíram para a morte de milhares de brasileiros, além de provocar consequências graves na economia, na educação e em toda a sociedade brasileira.

No início dos trabalhos, em abril, afirmei que, como filho de italiana com árabe, garantia que a CPI não acabaria em pizza nem em esfiha. E é o que vai acontecer. Eu e meus colegas do grupo majoritário do colegiado comprovamos que o governo do presidente Jair Bolsonaro se recusou a comprar vacinas oferecidas pela Pfizer e pelo Instituto Butantan, preferindo investir em medicamentos sem eficácia comprovada.

Cientistas independentes ouvidos pelo CPI estimam que a presteza na aquisição dessas vacinas poderia ter salvado a vida de pelo menos 90 mil brasileiros. Se a compra tivesse sido antecipada pelo governo, todos os idosos teriam sido vacinados até fevereiro, o que poderia ter salvado outras 70 mil vidas.

Mas, aconselhado por seu gabinete paralelo, preferindo apostar na politização em detrimento da ciência, o Brasil foi um dos últimos países de seu porte a iniciar o processo de vacinação. Uma tentativa de atingir a imunidade de rebanho também se mostrou desastrosa.

Bolsonaro, que sempre fomentou uma disputa entre a economia e a saúde, levou o país ao pior dos cenários: quase 600 mil mortes, milhares de pessoas com sequelas graves e persistentes, famílias devastadas e a economia em frangalhos, com inflação em alta, desemprego crescente e a queda da renda dos brasileiros.

Mais recentemente, foi desvendado pela CPI o crime contra a vida cometido na rede de hospitais do plano de saúde Prevent Senior, que fez experimentos em pacientes com remédios de eficácia não comprovadas, os mesmos defendidos pelo presidente. Caso tão grave quanto o visto em meu Amazonas, onde centenas de pessoas morreram asfixiadas, sem acesso a oxigênio por conta do descasos dos governos federal e estadual, como também ficou explícito nas sessões da CPI.

Ao contrário do que dizem aqueles que criticam a comissão e apoiam o governo, não houve perseguição a adversários políticos, mas um trabalho técnico, apoiado por especialistas do Senado, médicos e cientistas renomados, além de um grupo de juristas que dará respaldo ao relatório final, que será entregue nos próximos dias.

Sem cometer pré-julgamento, é evidente que um esquema de corrupção envolvendo uma liderança do governo no Congresso foi acobertado. Há indícios fortíssimos de busca de vantagens na negociação de vacinas e de que houve prevaricação por parte do presidente da República.

A CPI cumpriu o seu primeiro papel, que era garantir duas doses de vacina no braço de cada brasileiro. A evidência de que o governo estava negligenciando esse direito dos brasileiros fez com que a vacinação fosse acelerada, já atingindo mais de 70% dos brasileiros. E o segundo papel virá em breve, com o relatório final, que fará com que, antes da justiça divina, que pague com a justiça dos homens aqueles que são responsáveis pelas mortes que ocorreram no Brasil —principalmente no Amazonas.

Nosso relatório final será robusto e consistente, produzido com técnica e responsabilidade, a ponto de impedir que ele seja engavetado. Há evidências claras de crime contra a vida, crime sanitário, omissão do governo, corrupção, entre outras irregularidades. Confio nas instituições e na seriedade da Procuradoria-Geral da República para dar o andamento devido ao relatório, sem deixá-lo parado irresponsavelmente em escaninhos ou gavetas metafóricas ou reais.

A CPI trouxe o debate público para a população. Os brasileiros passaram a debater o tratamento precoce, a imunidade de rebanho e perceberam que o presidente e seus auxiliares estavam trilhando um caminho errado. Os trabalhos da comissão abriram uma caixa preta e expuseram uma série de absurdos. Além de iluminar o passado e investigar o presente, a CPI vai deixar uma lição para o futuro, para que descalabros como esses nunca mais se repitam.

*Omar Aziz é formado em Engenharia, foi deputado estadual, vice-prefeito de Manaus, vice-governador e governador amazonense por dois mandatos. É senador desde 2015 e atualmente preside a CPI da Covid. Escreveu este artigo para o Estadão.

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